O amor existe

Eu te amo, muito, pra caralho. Eu te amo como não amei ninguém na vida. Como nunca achei que poderia amar e isso que você chegou quando eu achei que estava amando alguém, quando eu estava numa relação que na verdade nem era mesmo uma relação, mas pelo menos eu estava tentando. Aí você chegou e foi ocupando os espaços que ele ia deixando. 

Se ele não ligava, você ligava. Se ele não sabia lidar com minha ansiedade, com minha depressão, com minha vontade latente de simplesmente deixar o mundo, você sabia. Eu  lancei sobre você todas as minhas dores e você me ajudou a cuidar delas. Se ele se drogava pra lidar com a vida, você fez com que eu parasse de agir igual. Se ele me deixava de lado, você me puxava pela cintura e me deixava do seu. Se ele aparecia só pra transar, você chegava aqui em casa com pizza, refri e muito colo pra me dar. Enquanto ele falava sobre coisas que gostaria de viver comigo você vivia. Você chegou numa sexta à noite quando eu estava descabelada e de pijama. O porteiro interfonou e fiquei confusa, mas deixei você subir e aceitou assistir Friends, começando pela sexta temporada. 

Você  foi tudo que ele não foi. O mais incrível é que você ficou. Você não teve medo, você assumiu o que sentia, me assumiu, a gente é a gente. Você não me cobrou que eu decidisse o que a gente ia ser, você simplesmente disse que a gente é. "Essa é minha namorada". Você não falou que me ama, você me mostrou isso cada dia. Você não fez jogo de desinteresse. Você jogou na mesa o interesse explícito, acompanhado de chocolate e flores (e eu que odeio clichês fiquei encantada porque você trouxe suculentas e chocolate branco, sendo clichê, mas pensando nos meus gostos). Você conheceu o meu pior, mesmo, e você ficou. Você chorou comigo, você entendeu meus limites, você não mentiu. 

Eu quis terminar, porque eu insisto em partir, (você sabe só nesse ano já terminei três relacionamentos) eu tento relações abertas, e eu termino mesmo assim, porque essa não sou eu.  A grande verdade é que essa não sou eu. E você sabe. E você sempre soube. E você esteve aqui quando eu gritei de raiva de cada um deles, e quando eu chorei me culpando por ter acreditado de novo, e todos os anos em que eu disse que não acreditava no amor.  

Se você não estivesse chegando daqui a pouco com uma mala com roupas suas, uns livros e cds, pra "passar uns tempos aqui em casa" eu realmente não acreditaria que você existe. 

Mas a verdade é que:

Você existe. 
A gente existe. 
O amor existe. 

Fui embora, mas não por falta de amor



Eu não tive outra escolha, e você sabe bem disso não é? Eu não podia mais ficar esperando que em algum momento você me dissesse o quanto queria que eu ficasse. Eu não podia mais ficar perdendo o meu tempo tentando decifrar todos os seus segredos, tentando ler os seus códigos e todas as coisas que você deixou subentendidas na maneira que você escrevia e falava. Eu queria que as coisas fossem mais claras, sabe? 

Queria que você fosse direto ao ponto como eu sempre fui contigo, que você se abrisse pra mim como abri a minha vida pra você e não tive medo nem quando percebi que você poderia ir embora a qualquer momento. Queria que você dissesse o que estava sentindo e não ficasse o tempo todo tentando esconder os seus sentimentos por medo do que eu pudesse fazer com eles. Queria que você olhasse em meus olhos, e antes que o nosso amor acabasse, dissesse o quanto ainda estava apaixonado por mim, o quanto queria ficar comigo. Talvez alguma coisa mudasse. Mas você não disse e eu cansei de tentar descobrir tudo isso. Às vezes a gente perde oportunidades incríveis por medo de sentir, fazer ou simplesmente falar o que sente. Acho que esse foi o motivo da gente ter se perdido. 

Você sempre esperava que eu agisse primeiro. Você dizia que estava com saudades, mas não mexia um dedo sequer pra gente se ver. Eu permiti que você entrasse na minha vida, conhecesse os meus defeitos e os meus sonhos, e o que você fez? Entrou, vasculhou tudo, trocou tudo de lugar, bagunçou pra caralho aqui dentro e quando resolveu acabar, se afastou sem nem dizer: ''foi bom te conhecer, mas eu tô indo agora''. E aquele gosto amargo de uma despedida que nem aconteceu ficou na garganta. Aquela mágoa por eu ter me entregue pra você e você sequer ter agradecido por ter sido bom. Aquela dor que deixa o peito da gente meio frio, sabe? Por tudo não ter tido um fim de fato, porque cara, eu achava que você seria mais maduro, achava que nós tínhamos liberdade o suficiente pra uma despedida decente.

Você quer estar com alguém, mas tem aquela leve sensação de que a qualquer momento a pessoa vai cair fora. Você fica com alguém, começa a se apaixonar, pensa em sair fora várias vezes, mas a pessoa faz com que você fique cada vez mais. E então você fica por pensar que o outro vai cuidar bem de você, que o outro vai te entender e respeitar os seus conflitos sobre estar se apaixonando mas não querer se apaixonar, mas no final das contas, a outra pessoa é a primeira a sair e te deixar sozinho. Você quer permanecer ali porque de alguma maneira aquilo te faz se sentir vivo, faz com que aquela chama que por tanto tempo esteve apagada continue acesa no teu peito, e você acredita que vai ser bom, porque a paixão não pode ser ruim, não é? Engano seu, quando a gente se apaixona por alguém e esse alguém se afasta de nós de repente, quando esse alguém não responde mais as nossas mensagens e some da vida da gente sem sequer dizer que a nossa estadia fez alguma diferença, tudo dói, tudo parece tão inútil. Fica aquela sensação de tempo perdido, sabe? 

Não sou aquele tipo de gente que simplesmente some da vida do outro sem sequer dizer o quanto o outro foi importante pra mim. Mesmo que eu não concorde com o fim, mesmo que acabar algo me cause um certo desconforto, mesmo que eu seja a pessoa que ponha um ponto final em uma relação, eu preciso dizer o quanto aquela pessoa me fez bem. E foi por isso que eu abri a sua janela e escrevi aquela mensagem, foi pra te dizer que apesar de tudo você foi importante pra mim, que depois de tanto tempo desacreditando no amor eu comecei a sentir um resquício dele vivo dentro de mim quando te conheci e por mais que você não tenha ficado, eu precisava te dizer ao menos um: ''melhor a gente acabar, mas obrigado por tudo''.

E amor é isso, é também aceitar quando não dá mais, e a gente não deu. 

Iandê Albuquerque 

Porque às vezes a gente não consegue dizer o que sente, mas outro alguém consegue. 

Desejos


Primeiro desejei você. Depois desejei que você me desejasse também. Sabendo que você me desejava, desejei que a gente tentasse. Tentando, desejei que fôssemos nós. Desejei que você desejasse tudo isso também. Desejei que fosse incrível enquanto durasse porque eu sabia que acabaria logo. Eu desejei que você acabasse porque eu já estava cansada de acabar. Mas você não acabou. Eu desejei que você quisesse permanecer. Você só queria ficar. Há um abismo enorme entre esses dois verbos. Eu desejei ler o que você escrevia. Eu desejei não te escrever mais.

De repente estava eu desejando conseguir sufocar o que eu sentia porque você decidiu que desejava se proteger de mim. Eu desejei que fosse passageira essa sua dúvida, esse seu medo. Desejei que o amor que você dizia sentir fosse mais forte que isso. Eu desejei o nosso início porque você tinha mudado muito. Até que eu desejei ter a minha paz de volta, porque eu me amo e amo a minha paz, mais do que amo você. Sim, eu te amo ainda, e acredito que será pra sempre, com certeza será um amor diferente do que me mata agora. Uma ironia, um amor que fez sentir tão viva, me fazer sentir tão morta. Mortos não sofrem, não sentem, não choram. Eu só desejava sentir.

Hoje eu desejo que você encontre alguém que te ame como eu te amo. Alguém que, assim como eu, conheça o seu pior lado e decida ficar, como eu fiquei. Desejo que ela não te julgue, como eu não julguei. Desejo que ela te ame nos seus piores momentos, quando você decide sumir, porque não está bem. Desejo que ela saiba respeitar esse seu momento, como eu soube. Desejo que ela te faça rir, como eu fazia. Desejo que você deseje tanto estar com ela, que as desculpas que você usava comigo você deseje nunca mais usar.

Desejo que ela tente te fazer feliz, mesmo vivendo dias ruins, como eu fiz. Desejo que ela te surpreenda com pequenos carinhos e mensagens como eu fiz. Desejo que te deseje sexualmente como eu desejei. Desejo que tenha o melhor de você, como eu acho que tive por um tempo. Desejo que ela não tenha seu pior, como você desejou me mostrar na nossa última conversa. Eu desejo que você se encontre na vida, que supere a sua fase ruim, que entenda que uma relação afetiva nada tem a ver com a amizade. Desejo que você supere seja lá qual for a dor que te atormenta hoje. Desejo que tudo isso passe, pra você e pra mim.

Desejo que ela faça seu coração disparar como eu fiz. Desejo que ela mexa com sua cabeça como eu fiz. Desejo que você se esforce mais para fazê-la feliz. Desejo que você entenda que não é porque está com alguém que pode deixar o romance e o flerte de lado. Desejo que ela te satisfaça, emocional e sexualmente. Desejo que vocês riam juntos, chorem juntos e não fujam um do outro. Desejo que sejam fortes pra enfrentar o que for que os outros falarem de vocês. Desejo por fim, que ela te ame como eu te amo. Desejo que você a ame de verdade, não esse amor que você disse sentir por mim.

Pra mim desejo que eu não desista de amar como te amei. Desejo que eu não tenha medo. Desejo que eu não me proteja. Desejo que seja natural. Desejo que meu coração dispare. Desejo um primeiro beijo encantador como foi o nosso. Desejo que ele saiba a diferença entre ficar e permanecer. Desejo que ele goste de me ler, em todos os sentidos. Desejo que ele me escreva e não tenha medo de mostrar. Desejo, não que ele me dê a paz que você não quis dar, mas que deseje manter a paz que luto pra reencontrar porque você me tirou.

Desejo que ele demore pra dizer que ama, mas ame de verdade. Desejo que ele me prometa pouco, diferente de você, e realize muito. Desejo, finalmente, que ele seja pra mim o que eu fui pra você. Que fique nos momentos difíceis, que ame nos meus piores momentos e depois de conhecer os meus piores erros. Desejo que ele deseje tudo isso também. Desejo que ele queira a gente, como você não quis.

Feliz seu dia, namorado.

Feliz dia dos namorados pra você que é meu melhor amigo. Que me fez acreditar em amor da vida de novo. Que me pensar que estar errada foi a melhor coisa do mundo. Que ri quando eu me irrito. Que me irrita e pede desculpas. Que tenta não errar. Que me admira. Que não se intimida com a minha força, inteligência, independência. Que, pelo contrário, se orgulha disso. Que sabe que eu estou com você porque quero, não porque preciso. Que sabe que apesar de tudo isso eu ainda quero ser cuidada, protegida, amparada. Que me escolheu. Que sabe que não é nada natural ficar com a mesma pessoa sempre. Que não é nada natural ceder. Que não é natural, é esforço, dedicação, querer. Que faz e não fala. Que não se acomoda na vida, mas na minha cama, no meu sofá. Que sabe que até aqui construímos uma vida sozinhos, agora temos que construir a nossa vida. Que tem paciência pra me ensinar a jogar. Que lê e acha lindo qualquer tweet que eu escreva. Que me marca nos memes mais imbecis. Que me presenteia com sorriso, áudios cantando, risadas na cama antes da gente dormir. Que segura a minha mão na cama, como se estivéssemos na rua. Que me ama meu corpo e minha alma nua. Que quando ri fica com o olho pequenininho. Que quer conhecer partes do mundo que a gente ainda não conhece junto. Que quer conhecer junto os lugares do mundo que conheceram a gente separado. Que sabe que o tempo que preciso só, é pra sentir saudade, pra me lembrar de  mim. Que adora a minha casa. Que deixa o teu cheiro na minha roupa. Que foi colocando suas roupas no meu armário. Que cozinha e lava a louça. Que não liga de assistir Friends de novo, e de novo, e de novo. Que sabe meu super-herói favorito. Que atualiza a minha playlist. Que me abraça e me aquece, o corpo e a alma. Que me faz gargalhar quando fala qualquer bobeira pra me animar. Que tem sobre mim um superpoder. Que usa esse superpoder pra me conquistar não pra me derrotar. Que fez entender que amor é ficar em silêncio e em paz, confortável. Que usa meu tênis (como serve?) Que me empresta o moletom. Que me cobre no meio da noite quando levanta pra tomar água. Que faz café. Que  adora me ouvir tocar, mesmo sabendo que eu não toco nada. Que me fez voltar a escrever. Que é minha única exceção. Que é quem me faz bem. Que é quem me faz sorrir na fila do pão e todos os clichês de música romântica. Que me chama de lua, me enche e nunca me mingua. Que cresce em mim. Que me faz crescer. Meu Sol. Pra você que brilha. Que inspira. Que é vida. Que é forte. Que é meu. Que me fez sua. Que é o melhor travesseiro. O melhor companheiro. Que é intenso e não se assusta com a minha intensidade. Que sorri e me atrapalha quando estou corrigindo. Que me diverte nos domingos. Que me conserta. Que me dedilha. Que me canta suave. Que me faz suspirar. Que torna até dormir e comer desimportantes. Que me atrai como ímã. Eu que era de ferro não resisti. Que faz chamada de vídeo, pra me ver trabalhar. Que eu assisto jogar vídeo game. Que rima e tem vergonha de mostrar. Você que é grande, ímpar, meu par. Pra você, pra quem eu poderia escrever todo os dias. De você de quem eu só tenho coisas boas pra dizer. Você que de alguma maneira muito louca fez com que eu me tornasse mais eu mesma. Que me libertou de mim. Que fez todo o passado ter sentido, eu senti muito e passou. Você não passa. Você fica. Ficamos. Somos nós. Pra você, feliz dia dos namorados. Feliz dia do "Como você está?", do "Acorda, fala comigo", do "Eu não vou dormir aqui hoje... me empresta uma camiseta", do "Eu gosto de ficar sozinho, mas gosto mais de você", do "Lembrei de você quando ouvi, li ..." Obrigada por se deixar existir na minha vida, por me deixar existir na sua. Feliz seu dia, namorado. 

Divina comédia


Eu trato o amor como alguns ateus tratam Deus. Eu duvido que ele exista, mas sabendo que seria melhor que ele existisse. Eu poderia repetir, talvez com sucesso, aquela proposta: se você existe, me mande um sinal, me prove. Mas a verdade é que de alguma maneira o amor se mostra pra mim, mas cada uma dessas vezes só confirma minha ideia de que ele até pode existir, mas eu nunca vou saber.
Eu nunca vou experimentar. E não adianta conhecer a paixão, o tesão e a amizade. São deuses diferentes. Esses são ex-anjos, agora caídos na Terra, levam os pobres humanos à desgraça. Assim como o objetivo do diabo é levar consigo ao inferno quantos mais conseguir, esse também é o objetivo do tesão e da paixão. O objetivo da amizade é o purgatório, que para alguns também pode ser chamado de friendzone. Aquela relação que poderia ser tudo e que pode acabar do nada, mesmo sem ter sido alguma coisa.
Eu já estive no purgatório. Eu sou visitante assídua do inferno. Aquele lugar cheio de calor, almas perturbadas, gritos de dor (sentir dor pode ser um prazer). Mas o paraíso... o paraíso eu nem sei se existe.
Mas eu tive uma miragem. No meio do calor do deserto. Eu vi o que pode ser o paraíso pelo olhar ingênuo de um menino. Recém-saído da adolescência, mas ainda cheio de sonhos. Eu vi nos olhos daquele garoto o que pode ser o amor, no toque das mãos dele, no meu delírio eu senti amor. Na voz dele, que eu ouvi por horas, eu senti um conforto e uma paz, o que deve ser a sensação que o paraíso traz.
Na risada daquele quase ex-garoto eu senti um fresco de inocência, misturado com malícia ingênua. Assim mesmo, complexo, confuso, intenso, inteiro, com medo, metade certeza, metade dúvida. Ele.
Eu de repente senti que aquele quase homem poderia ser meu paraíso, e que ele sentia que eu poderia ser seu paraíso também. Até que a gente descobriu, que a vida é uma comédia divina. Nem Dante, nem Beatriz. Nem nós dois.
A vida não é feita só do sobrenatural. Entre paraíso, purgatório e o inferno, há a realidade.
Na realidade não há nada.
É tudo uma grande ilusão.
A crença em Deus.
A crença no amor.
Aquele olhar.
O que eu senti.
Ele.
Nós.

Acorde

Você é lindo. Mesmo não fazendo meu tipo exteriormente você é lindo. Mesmo pequeno, por dentro você é grande. Seus olhos pequenos que diminuem ainda mais quando você sorri são olhos que veem o mundo de um jeito tão grande. Eu que sou maior que você me sinto pequena diante de ti. Eu sinto inclusive que você é bom demais pra mim. E que eu não te mereço. Suas mãos tão pequenas me abraçam e me mostram o mundo.  A gente segurou as mãos para rezar e você rezou. E você disse que crê. E eu achei você ainda mais lindo. E você me disse coisas tão íntimas e a gente riu tanto. E ao pé do ouvido você me disse coisas tão legais e eu fiquei me perguntando: por que não ele? Por que não a gente? Por que eu fico tão fixa nele que não me escolhe quando tem você que me abraça, me acolhe? Sabe, eu aqui te ouvindo tocar, lembrando do seu sorriso, eu penso e sinto coisas e espero que você sinta também. Você me toca e eu sorrio. Meu pequeno de olhinhos pequenos, mãos pequenas e coração grande. Me apequena diante da sua imensidão. E eu gosto. 

Text after

Começou a chover. Está noite. A gente escolheu um filme pra ver, mas você conhece meus desejos. A meia luz, aquela banda de jazz contemporâneo ao fundo. Meu bem, você me conhece e não é pouco. Qualquer troca de olhares acende-me quando chove, e quando é noite, e quando é você já pegando o vinho, ligando o som. Eu poderia ficar presa nessa e nas próximas cenas pra sempre. Teu cheiro me desperta. Eu queimo. Eu quero você ocupando a cama, o sofá, meus espaços, sempre. Não para. Dedilha-me , tira minhas notas mais agudas. Estamos afinados. No mesmo ritmo. As batidas cardíacas, os suspiros, no mesmo compasso, no mesmo tom. Tocamos. Ó céu. Entrelaçamos. As pernas. As mãos. 

tudo o que eu peço

Adele está gritando no último volume. Eu já não me preocupo com os vizinhos.

I don't need your honesty
It's already in your eyes
and I'm sure my eyes, they speak for me
No one knows me like you do
And since you're the only one that matters
tell me who do I run to?

Eu deveria ter desconfiado. Eu sempre soube que isso teria fim. Onde guardei enquanto estávamos juntos, a mulher cética que me tornei?

I will leave my heart at the door
I won't say a word
They've all been said before, you know
So why don't we just play pretend
Like we're not scared of what's coming next
Or scared of having nothing left

Por favor, não diga mais nada eu só queria mesmo que você soubesse que nem tudo foi uma mentira e cada momento nosso foi real.

Você sabia como era difícil. Quantas vezes me ouvir dizer que eu não acreditava mais? Por quantos caras me viu chorar uma noite inteira e encontrar outro no dia seguinte pra esquecer? Você gostaria mesmo de ser o próximo? Saiba que o próximo é você.

Let this be our lesson in love
Let this be the way we remember us
I don't wanna to be cruel or vicious
And I ain't asking for forgiveness
All I ask is

Eu nunca quis que fosse assim. Eu te amo tanto. É que não dá mais pra mim.
Por favor, eu não quero mais ouvir. Não há nada que precise ser dito além de adeus.

If this is my last night with you
Hold me like I'm more than just your friend
Give me a memory I can use
Take me by the hand
while we do what lovers do
It matters how this ends
Cause what if I never love again?


Você saiu depois da nossa última noite. Da nossa última discussão. Eu não sei bem como devo reagir. Eu não sei como agir porque não sei como me sinto. 

E tem você


Foram anos fechada para qualquer sentimento real - que fugisse dos amores inventados de outrora. Eu me perguntava se algum dia sentiria o que já senti. Eu me perguntava se confiaria novamente em alguém. Cara, durante anos eu só conseguia me lembrar dos relacionamentos ruins. 

Daquele que fez tudo do modo mais perfeito do mundo me conquistou e apareceu com outra. Daquele que fez todos acreditarem que estávamos juntos - inclusive eu -, enquanto ficava com a outra casada escondido. Daquele que teceu comentários nada elogiosos  mas que não me deixava só. Daquele que usou a distância como desculpa pra terminar. Daquele que eu não quis namorar por saber no que ia dar. Daquele que eu considerei ser só amigo e mesmo assim me decepcionou, traiu, abandonou. Os homens não prestam diz minha mãe. Eu tentava provar que ela estava errada. 

Foram tantas pequenas paixões. Entregas tão rasas. 

E de repente, mesmo, eu comecei a lembrar dos caras incríveis que eu já tive o prazer de conhecer. Bem mais que os três que citei nessa série de textos. Tem aquele que prometeu casar-se comigo da próxima vez que se divorciar - um amigo incrível que sabe que pode brincar - tem aquele que me faz sorrir toda quarta-feira. Do nerd ruivo que sempre arruma meu note, meu iphone e desarrumava meu cabelo, sem bagunçar minha vida. Tem aquele que eu não soube amar. O amor de infância que eu reencontrei e não consegui viver. E tem você. 

Eu não posso e eu nem quero mudar tudo o que passou. Nem as coisas boas, nem as coisas ruins. eu não queria ter tentado mais com ninguém. Eu não queria que alguém simplesmente não existisse. 

Eu só quero o que tenho agora: confiança, segurança, vontade, dedicação. 

A gente não ama aos 30 como amou aos 18, aos 22. 

E tem você. 

If I lay here
If I just lay here
Would you lie with me and just forget the world?

I don't quite know
How to say
How I feel

Those three words
Are said too much
But not enougSnow Patrol - Chasing Cars 

Lembrança 3

Ele era novo. Ela era nova. Foi na porta da igreja. Por meio de pastores e pais mal intencionados. Conheceram-se. No processo de conhecerem a si mesmos, foram descobrindo o outro. Sem jeito. Era época do msn. Das sms's. Do orkut.

Falavam espanhol (ela tem essa mania estranha de só amar em outro idioma - com o outro foi inglês, com o outro baianês...) um espanhol com sotaque paulista. A voz toda aveludada. O olhar lento. O amor mais sem jeito que eles tiveram.

Foi tão sem jeito que começou e não terminou. Começou na amizade, virou paixão, tesão, acabou amizade de novo. Não acabou. Não tem jeito.

Além da igreja, a faculdade em comum. Viam-se todos os dias de domingo a domingo. A amizade cresceu sincera: mesmo gosto musical, mesmo gosto de cinema, mesmo gosto de leitura. Ela tocava. Liderava. Ele mal havia aparecido e já estava com ela em tudo. Também tocava, também liderava.

Orgulhosos admiravam-se. Ele mostrava a todos os escritos dela. Os técnicos e os românticos. E os religiosos. Ela falava dele a todos. Divertido. Inteligente. Amigo. Carinhoso.

Foi numa tarde de dia da semana, no mirante da faculdade. Sem jeito, conversaram sobre a situação. Não havia jeito. Não havia como não tentar.

Por tempos - poucos - tentaram.

Ela, por medo, sem jeito acabou. Ele sem jeito aceitou.

Ela fugia em todos os lugares. Chegava mais tarde na faculdade. Ele sentava ao lado dela na igreja. Ela sai enfurecida. Algo doía, ela nunca soube o quê. Talvez fosse a felicidade.

Eram tão sem jeito que não souberam terminar. Falaram-se e seguiram pra reunião que tinha juntos em 10 minutos.

Eram ex-namorados. Mas trocavam presentes. Embora ela fugisse, ainda eram sempre vistos juntos.

Um dia foram a um show. Não sabem exatamente quem chamou quem.

Eram tão sem jeito que ele apresentou ela aquele que seria seu amor pelos próximos 4 anos.

Eram tão sem jeito que ele ouviu ela falar do outro todo esse tempo.

Eram tão sem jeito que se desculparam um com o outro inúmeras vezes por e-mail.

Não havia jeito: desculparam-se.

Ele casou. Ele a convidou. Ela não foi. Ela terminou aquele relacionamento com o amigo em comum.

Ela sempre terminando o que não deveria ter começado.

Ele ainda sempre disponível quando ela tem pesadelos. Tem medo da vida.

Não tem jeito.

Faz mais de 10 anos. Eles continuam sem jeito pra terminar. Sem jeito pra continuar. Sem jeito de não ser.

Não tem jeito. Sempre serão lembrança. Daquelas lembranças boas que a gente nunca quer deixar no passado. Ela disse isso pra ele. Sem jeito.


Lembrança 2

Era verão. 2003. Faz 14 anos. O que quer dizer que eu tinha 15. Eu lembro exatamente a roupa que eu vestia. Um short e uma camiseta. Extremamente despretensiosa, diferente das primas e irmãs adolescentes sempre muito bem produzidas e arrumadas, mesmo na praia.
Meu irmão, com 18, tinha saído para buscar seus amigos que ficariam conosco na casa da praia da vó. Do ano novo até o carnaval. Naquela época eu era só aluna e podia juntar uma data na outra. Sem pais na casa.
A noite era de chuva. Tempestade. A luz havia acabado. O carro ilumina o portão. Os meninos chegaram. Eu não os conhecia. Eram alunos do colégio militar, mais velhos. Eram 3. Entre eles apenas um, era realmente despretensioso. No primeiro cumprimento o toque dele me estremeceu. O olhar dele mexeu comigo. Na minha falta de autoestima adolescente achei que tinha entendido errado. Afinal, estava muito escuro, poucas velas e a luz do carro devem ter alterado a percepção dele.
Na realidade, a minha é que estava errada. Na primeira semana, nossas conversas já haviam se entrosado. Sempre gostei de caras que fogem do clichê de conversa: futebol e carro. Ele era assim. Nada clichê. Mais tarde eu descobriria que era menos clichê do que eu imaginava. Algumas noites ele ficava em casa comigo e minha vó, mesmo quando todo mundo insistia pra que ele saísse.
A regra na vó era: meninos no quarto de trás, meninas no quarto da frente sob sua supervisão. Truco. Bebida. Cigarro escondido. Churrasco. Um looping infinito de alegria adolescente. A gente passava as tardes conversando, jogando truco, escondidos atrás das pedras da praia.  Ele dizia não pra bebida e pro cigarro, pra mim ele nunca dizia não. Infelizmente, eu disse não a ele, tempos depois. E a regra da vó era só pra hora do sono. Então, uma noite, pouco antes do jantar, fomos “flagrados” deitados juntos num colhão de solteiro – sem nada demais- meu irmão fez um escândalo, por isso resolvemos não falar nada e disfarçar o máximo possível.
Ele foi o cara mais incrível que eu conheci. Mesmo hoje anos depois, ele é um dos caras mais maravilhosos que passaram pela minha vida. Ele me fazia rir. Ele me fez sentir coisas de pele sem precisar me tocar. Ele me respeitou como indivíduo. Cada uma das minhas vontades. Inclusive a final.
No carnaval, meu irmão, que nada sabia, vivia dizendo que ele havia ficado com alguém. Cada noite, meu irmão descrevia uma mulher diferente. Eu não me importaria, mas sabia que não era verdade. Ele não podia ficar todas as noites comigo, era preciso equilibrar já que “não sabemos onde isso vai dar”. Dizia eu no alto da minha pseudo sensatez, disfarçando o medo de me entregar, me apaixonar e ser feliz. A gente ouvia quase sempre antes de dormir o cd do Jota Quest (Discotecagem Pop variada) – que eu nem gostava – mas valia por ele. E hoje se eu escuto alguma música daquele cd, me vem toda nossa pequena histórica romântica à mente. E cada música faz sentido.

“Eu vou falar de amor como eu falava antes 
De um jeito simples, que antes parecia louco 
De uma loucura muito boa, das coisas que eu sentia antes 
Antes que eles dissessem que eu estava ficando louco 
É, eu sou assim, um cara meio tonto 
Eu fico tonto só de ver que alguém já está ficando tonto 
E tento ajudar a todos os que ficam tontos 
E assim quem faz papel de tonto sou eu mesmo”

Ele cantava pra mim.
O carnaval havia acabado e voltaríamos pra nossas rotinas.  E a gente ficaria no passado. Amor de praia não sobe a serra.
O nosso subiu. A gente se falava sempre. Ele ia me buscar na escola. Antes dele ir pro estágio. A gente almoçava. Se curtia. E ia pras responsabilidades da vida. À noite voltamos para nossa ilusão de paixão. Ele me conhecia. O primeiro presente que ele me deu foi o livro “Estação Carandiru”. O segundo um cd do Face da morte. Eu amava aquilo. Mãos dadas. Olhos nos olhos.
Um dia passamos a tarde na casa da bisavó dele. Eu nunca me esqueci. O passeio pelo quintal, florido. As risadas. Os olhares. As mãos se entrelaçando. A gente piscava lento. Aquilo foi tão importante. Ela sentada me falando sobre ele. Aquele cara incrível que tinha cruzado meu caminho. A bisa dele foi a única que soube da gente. Ela e minha estante que ainda guarda o livro com dedicatória. A mais linda de todas que eu recebi. Naquela tarde ele quis oficializar tudo. E eu disse não.
Demorou pra que a gente aceitasse esse não. Demorou pra que eu aceitasse novos convites pra churrascos do meu irmão. Eu demorei demais pra entender que ele não era como os outros que tinha aparecido. Ele era diferente. Ele ainda é. Talvez ninguém ter ficado sabendo do que houve foi o que permitiu que ele continuasse até hoje muito amigo da família.
Casado. Com filhos. Emprego de mais de 44 horas semanais. Isso foi o que ele sempre quis. E ele merecia. Eu nunca quis. Eu continuo não querendo. Talvez tenha sido o não mais sincero da minha vida. E o que eu mais me arrependi também. Para os outros eu disse não porque eram ruins, pra ele porque ele era muito bom.
Ninguém faz boas escolhas aos 15. Ele já tinha 19. Mas poucas pessoas fazem boas escolhas aos 19.
Do cd do Jota Quest, depois do fim, algumas músicas faziam mais sentido que outras:


“Viva todo o seu mundo
Sinta toda liberdade
E quando a hora chegar, volta...
Que nosso amor está acima das coisas desse mundo
Vai dizer que o tempo
Não parou naquele momento
Eu espero por você
O tempo que for
Pra ficarmos juntos
Mais uma vez”

Lembranças 1

            Eu tinha mais de 16. A idade certa não sei dizer. Sei que ele era mais velho. Sei que o via apenas uma vez ao ano, na casa de praia dos meus avós.  Ele residia na cidade litorânea, mas mantinha sua pela clara, que indicava sua descendência europeia, assim como seus olhos claros. Indicava também sua tendência à reclusão social. O que me encantava. Era mais velho, nó máximo 20. Forte. Com um sorriso que me tirava o chão e me jogava em qualquer lugar.
                Ele foi uma daquelas paixões que eu nunca esqueci. Guardei por anos a pulseira que ele me deu, encharcada com seu perfume. Ele foi uma daquelas paixões secretas. Não foi a primeira e nem a última, mas com certeza uma das mais marcantes. A galera depois do almoço se juntava lá na vó para ir à praia. Ele era amigo do meu irmão. A gente fugia da praia e passava a tarde jogando vídeo game. Eu fazia o café. A gente ia pro truco. Eu não me lembro de quase nada da vida dele, mas recordo cada coisa que ele me fez sentir.
                Quando a galera chegava da praia eu já tinha tomado banho e ele já tinha ido embora. Depois do banho, à noite, antes que todo mundo ficasse pronto, ele me chamava e íamos antes de todos à praia. Eu nem sei dizer com quantas mãos eu percorri aquele caminho anos depois, mas o caminho segurando as mãos dele era diferente.
                Qualquer garota de 16, 17 anos se encantaria por ele. Ele tinha mistério na voz, no olhar. Era o amigo do meu irmão(Análise?). E era segredo o que a gente tinha. E era do momento. E era bom. Talvez ele tenha me ensinado isso: bons momentos não são pra sempre. Não é preciso ser amor pra ser feliz. Ele nunca soube o quanto me fez bem. Claro que nos vimos, mais alguns verões. Eu já namorando – sem ninguém saber – como quase sempre fiz – ele já morando com alguém.
                Lembro dele hoje com uma nostalgia boa, leio o “Pra ser sincero” do Gessinger e recordo aquela voz rouca, cantando pra mim enquanto penduro a toalha de banho no varal, com o cabelo molhado, zero produção – tudo natural – “(Lu) Ana, teus lábios são labirintos, (Lu)Ana/Que atraem os meus instintos mais sacanas/ teu olhar sempre distante sempre me engana”. Aquele olhar, aquela voz. Eu me sentia a garota mais importante do mundo.
                Ele era meu Humberto. Ficávamos horas falando sobre a vida, os sentimentos. Depois dele poucos me interessaram como seres completos. Ele era intenso sem ser irracional. Foi por pouco tempo. Não foi nada sério, mas me feliz. Me influenciou. Eu nunca consegui retribuir a música, a pulseira, mas lembrá-lo com o carinho que sinto, é uma boa coisa.

                No labirinto das nossas vidas e dos muitos lábios que vieram depois, ele certamente seria o meu refrão. Pra onde a música sempre volta. O ponto alto. O que a gente nunca esquece. E cantarola no volante. Na estrada. Ao passar o arco de boas-vindas da cidade litorânea. 

Precisamos falar sobre nós

Hey, tá aqui. Tá aqui o livro que você me deu de aniversário. Tá aqui o cd do Smiths que você me deu junto com o dvd raríssimo daquele filme irlandês que a gente ama. Tá aqui impressa e exposta em dois porta-retratos a foto do duplo do Smiths que a gente tentou imitar. Você é muito mais lindo que o cara da capa (e ainda bem não tem nem luzes no cabelo nem olhos claros), meu moreno. 

É eu sei, não gosto de pronomes possessivos. Nada nos pertence. Pela minha fé nem mesmo nós pertencemos a nós mesmos. Mas permita-me a contradição. Escrevo porque precisamos falar de nós. Na realidade, acho que eu, eu preciso falar de nós. Não vale a hora na terapia e a mesa do bar com as amigas. Eu preciso falar de nós pro mundo. Meu mundo e do modo mais concreto pra mim: uma tela, umas teclas, e tudo que está aqui sai. 

Esconder que escrevo não foi proposital. Eu estava me escondendo das palavras mesmo, não de você. Trabalhar com elas, me afastou. Você não vai entender. É que o que hoje você lê, já foi meu jeito de dizer coisas que eu jamais diria. Eu simplesmente não vou te dizer que eu escrevi. Você vai ler e talvez nunca me diga que leu. Esses somos nós. 

Eu preciso falar de nós. E usar o nós, me dá um nó no peito. Um medo imenso de me enlaçar e me prender, me contorcer pra não me machucar. Mas é que eu cansei da pose de gray-romântica pro mundo. Hey, boy. A gente se olhou. A gente se olha. E por medo do nós eu usei o "a gente". Desculpa. Nós nos olhamos. Não só naquela noite. Não só na hora de indicar o aqui e o ali, "tô quase lá". Nós nos olhamos sentados no sofá. Entre as páginas que viramos do livro. Nós nos olhamos por cima das telas. Nós vamos trocar presentes no Natal. Nós já somos nós pros outros. 

Você não sabe, mas andei passando meu passado a limpo. Eu não poderia ser nós, se ainda estava com ele - e a raiva dele - aqui dentro. Agora tem mais espaço pra você. Tem espaço na gaveta. Tem espaço pra escova de dentes. Tem espaço depois de 12 aulas em pé. Tem espaço pro café, pra cerveja, pro bar. Tem espaço pra eu me explicar, inspirar, me derrabar. Tem espaço pra você ficar. 

Você não precisa mais pedir licença. 

Pouco importa agora o que virá se tudo que já somos não poderia ser outros se não nós. 



How can they see the Love in our eyes
And still they don't believe us?
And after all this time
(they don't want to believe us)
And if they don't believe us now
Will they ever believe us?Como podem ver o Amor em nossos olhosE ainda não acreditar em nós?E depois de todo esse tempoEles não querem acreditar em nósE se não acreditam agoraAlgum dia acreditarão?The Smiths  -  the boy with the thorn in his side 

Enquanto ele dorme

Ele está deitado. Dorme. Isso não me incomoda. Dormir depois do sexo é um clichê saudável. Eu gostaria de estar dormindo também, mas alguma coisa em tudo que houve hoje me lembrou você. Ele dorme exibindo essas tatuagens que eu tanto gosto, com o cabelo longo extremamente bagunçado, e eu me sinto culpada por estar te escrevendo. Mas eu preciso. 

Ele não é nada sério, mas também não é alguém que seja dispensável. Ele me atrai. Ele me entende. Ele me faz rir. Ele me dedilha como ninguém. Arranca de mim notas de suspiros agudos que ninguém nunca arrancou. Nosso caso é grave. Agravo de instrumento. 

Ao dele da cama - porque ele já tem um lado - no chão está a biografia do João Gordo e do meu lado, a autobiografia da Rita. A gente trocou presentes e precisou ser antes do Natal. Trocar no Natal é assumir um compromisso. E compromisso não é com a gente. A gente se comprometeu a ser feliz e a tentar fazer o outro feliz enquanto as duas coisas juntas forem possíveis. 

Eu precisava te escrever. Não há um pedido de desculpas. Não há saudade. Só um desejo de saber como você anda. Se conseguiu sobreviver a nós. Eu mudei tanto e foi depois de você. Eu nunca mais soltei um "eu te amo". Eu nunca mais enviei um texto pra ninguém. Eu nunca mais beijei como o Homem Aranha e a Mary Jane. Eu nunca mais enviei músicas e gravei uma trilha sonora ou fiz uma playlist romântica. 

As músicas minhas e dele são todas pra nossa hora. Eu adoro cada uma delas, são intensas, são excitantes. Quando eu falo assim, parece que eu e ele é só físico, mas não é. Ele tem algo que me prende, pelo olhar, pela mão, pelo riso. O olho dele fica pequenininho quando ri. Ele me deixa leve. Eu sou com ele quase o melhor que eu já fui com você. Não acho injusto com ele. A gente é assim. Eu sei que vai ter um dia que ele não vai voltar. E eu vou precisar me livrar do cheiro dele no travesseiro, trocar o sofá. Mas quando ele for embora eu estarei preparada, eu vou ter me despedido, porque cada dia pode ser o último. 

Com você não. A gente não sabia que era o último beijo. O último domingo dividindo o sofá. O último cinema. A última refeição. Desde que você foi embora e disse adeus da maneira mais fria possível, eu comecei a sempre esperar o fim. E ele sempre chegou. 

Eu não quero adiantar as coisas por aqui. Vê-lo dormir e poder abraçá-lo é seguro. Porque eu não me ancoro. Eu sou um barco a navegar. Hoje minha maré é ele. Na outra lua ela pode virar. Pra mim. Pra ele. 

Te escrevo pra dizer que estou bem, mas já não sou quem fui contigo. Oito tatuagens a mais e muito medo de nunca voltar a amar. 

Vou dormir. Me enrolar nos braços dele que nunca me prometeu ficar, que eu nunca pedi pra não ir, mas nunca me deixa a esperar e volta mesmo quando eu acho que vai partir. Além disso, amanhã a gente trabalha e pra dar tempo do café não podemos nos atrasar. 


Pra você

Agora há pouco eu acabei de ler o texto do Gregório pra Clarice. E aí eu lembrei de você. Do filme deles que assistimos juntos, porque você lembrou de mim, porque o filme lembrava o outro filme que amo e que você varreu a internet pra encontrar há muitos anos.
Eu quis escrever pra você, porque o Gregório me fez perceber que devemos valorizar o amor que demos e recebemos, e que só porque o amor acabou não quer dizer que não existiu: o amor acaba, já dizia o Antônio Prata.  Aí eu entendi o Felizes para sempre dos contos de fada. Você já percebeu que tem o ‘foram’ antes? O verbo no passado? Foram felizes para sempre. Só é possível a felicidade eterna no passado. Mantendo as lembranças boas. E como tenho lembranças boas da gente. Até mesmo aquelas brigas dramáticas são boas lembranças.
Com você eu podia dormir no cinema, eu podia ocupar seu quarto, eu podia te deixar sozinho na sala, podia mandar todos os textos pra você ler, podia curtir Muse, porque você também curtia, a gente tinha a nossa trilha, o nosso tempo, o nosso mundo. A gente ia à tarde pra faculdade pra aproveitar cada minuto. Você lia minhas matérias do jornal pras suas colegas, orgulhava-se de mim. Eu amava como você era gentil e educado com todos. Eu amava seu modo de ver o mundo. Eu amava o modo como você me amava. Eu amava o modo como tudo com a gente era diferente. Conhecer sua família tão rápido, ficar amiga da sua mãe, como sou até hoje. Eu amo o modo como você foi meu melhor ex-namorado. Amo o modo como me apresentou pro meu novo amor. Amo o modo como me ouvia falar dele, reclamar. Eu amava o modo como me entendia. Eu amava o modo como me surpreendia com cada presente incrível, mesmo depois do fim. Eu amo o modo como ficamos amigos depois do fim. Eu amo o modo como por anos passamos a relação a limpo, sempre agradecendo pelo que vivemos, reconhecendo nossos erros. Talvez, se eu parar pra pensar, eu ainda te ame. Naquele tempo infinito.
A gente desbravou esses sentimentos que todo mundo tem aflorado, mas a gente teve que procurar bastante. E aí a gente não conseguiu lidar com tudo aquilo. E acabou. O amor acabou depois da nossa relação, mas isso é normal. Eu acho.
Eu sei que você lê e assiste o Gregório. Eu sei que você ouve a Clarice.

É isso, eu só queria dizer que nós dois fomos felizes para sempre e que eu acabei de descobrir. 

1,2,3

Estou pronta pra morar em você. Pra te deixar morar em mim. Nossas olheiras denunciam: não queremos dormir e perder um segundo do outro. Medimos o tempo em estarmos ou não juntos. O tempo é clichê e passa rápido quando estamos juntos tão devagar quando separados. A gente conversa tanto e eu ainda tenho tanto pra descobrir de você. 

A gente é igual no restaurante chique ou no meio-fio do posto depois do restaurante chique.  A gente ri, fala sobre as notícias da semana. Discute o amor. Você repara que há mais tatuagens em mim que da última vez. É mais que reparar que eu também mudei o cabelo. É mais que lembrar que da última vez ainda tínhamos relacionamentos e que por isso fomos tão cuidadosos em não alimentar nada. Mas a vida fez nossos caminhos se cruzarem de novo. Aqui em estamos. 

Esperando o próximo passo. Pra acreditar de novo. Talvez pela última vez. Uma. Duas. Eternamente.

Tempo

Aqui não é o vinho falando. É a percepção de que o tempo passou. Você costumava ser aquele pra quem eu corria na tempestade, o que me despertava o riso, que me era um porto seguro, o eterno que nunca teve um início. Quase dois anos se passaram desde minhas últimas palavras nada doces, mas extremamente sinceras pra você. Quase dois anos passaram desde sua última frase, a tentativa de me fazer voltar atrás. 

Eu nunca voltei. Você deveria saber. Quantos relacionamentos você me viu acabar ou viu terminarem comigo e nunca houve volta? Espero ter feito você perceber que não é tão diferente assim. Cinco anos de pseudo companheirismo. Eu sempre soube que a gente ia acabar assim. Eu te indiquei o princípio do fim e você não me ouviu. Você nunca me ouviu. 

Mas agora não sou eu falando. É o tempo. São nossos amigos em comum já acostumados a não falar teu nome pra mim e nem de mim pra você. É minha vida completamente diferente desde que você se foi. São as doenças que eu descobri e trato e você sempre achou que eram frescuras. É o apartamento que eu comprei e você nunca achou que eu conseguiria. A CNH. O carro. Os congressos. Os voos. É tanta coisa que eu receio não há mais nada em mim daquela que te conheceu. 

Não há a inocência de acreditar em alma gêmea. Nem em um único amor em toda vida. Não há os sonhos de casamento, filhos. Todos nossos planos não significam mesmo nada pra mim agora. E não há tristeza nisso. Há um senso de realidade que não me perturba, pelo contrário, me liberta. Desde que te disse pra nunca mais me procurar, eu vim me encontrando pelo caminho que você não queria que eu trilhasse. Há escuridão, mas eu tenho uma luz interna que não me deixa temer. 

Dois anos sem você e eu terei o resto da vida pra me conhecer, me satisfazer, pra ser. O tempo passou e só hoje me dei conta.Um amigo me lembrou seu aniversário no próximo mês. E eu nem preciso me desculpar por esquecer. 


Eles não são todos iguais

Os homens não são todos iguais. Você senta na mesa de um bar com uns amigos e umas amigas, dentre eles gente que você acabou de conhecer. Chop desce e chop sobe. O novo cara lembra que já assistiu sua aula conjunta com um dos outros caras que está ali. Nenhum dos dois é o cara que te convidou. 

Chop desce e chop sobe o novo cara pede seu whats e já manda mensagem. Você ignora, o papo está ótimo e você nem lembra do celular. Chop desce e chop sobe o cara novo mostra na tela do celular dele uma mensagem convidando você para ir embora com ele esta noite. Sua resposta é taxativa: não. Parece que ninguém na mesa percebeu o que está acontecendo. 

Até que o cara que te chamou olha pra você e te pergunta se você não quer sair com ele, diz que hoje você está incrível, do jeito que ele gosta. Você diz que já está saindo com ele, inclusive naquele momento está lá porque ele chamou. Chop desce e chop sobe. Poliamor, monogamia, moral, a história do amor, a linguística do amor. PA. Amizade Colorida. Confissões. Um deles confessa um poliamor, o outro que tem um filho em outro estado. Elas que já tiveram PA. Você não vê diferença entre PA e amizade colorida. "Eu queria me encantar por alguém de novo", você confessa. Chop desce e chop sobe. A mão escorrega. O sorriso solta. O olhar demora. 

Os homens não são todos iguais. Um te chamou e ensinou o caminho de volta. Um queria dormir contigo na noite em que te conheceu. Outro se ofereceu pra pagar a próxima. O último se preocupou em te levar até seu carro e confirmar se você chegou bem. 


Apartamento



"E quando eu percebi estávamos nós dois de novo
nesse apartamento
A organizar o tempo: o que se foi e o que vai ficar.
Pra agora e talvez depois
Vassoura, feijão com arroz, pudim de amora
O beijo que eu vou te dar
E a cama pra bagunçar
Chuva que demora
E então que eu vi no espelho do elevador
nós dois arrumando os cabelos
A disfarçar os medos de um velho amor que irá passar"

Léo Fressato - Apartamento

Poderia ser setembro, mas é agosto mesmo. É agosto e faz muito sol lá fora. Você apareceu sem avisar, mas eu já poderia esperar. As chaves que eu te dei você nunca devolveu. Eu, talvez na esperança de você voltar, nunca mandei trocar a fechadura. O Luis, porteiro, já te conhece de tempos e nunca iria te impedir de entrar.

Está lá você, fazendo café como quem pretende ficar, mas as malas no sofá cheiram despedida. Não adianta fazer escândalo, o jeito é tomar banho e esperar o café ficar pronto. Não sei o que desejo: o banho das noites de sexta antes de algum happy hour qualquer ou o de segunda de manhã, com tudo ainda por vir.


Finjo ignorar sua presença e deixo tocando aquela música “chega de mansinho, entra sem pedir, bota um Jamie Cullum pra descontrair, vai largando o mundo / pega aquele vinho, deixa eu respirar, rasga o calendário, o tempo é seu lugar, pode vir com tudo*”. Aí eu larguei tudo. Larguei o chuveiro ligado, o café escorrendo pra garrafa, suas malas pelo chão, me larguei nas tuas mãos. Escorrendo pelos teus dedos. Teu cheiro desperta meus sentidos, mais que o do café.
É um velho amor a gente sabe. Vai passar. Sabemos também. Mas aquela noite parece nunca terminar. Medo? A gente nem sabe soletrar. Desejo, é o que sai no lugar. 

*Jamz - Insano
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