Já queria poder escrever uma história: um conto ou romance ou uma transmissão. Qual vai ser o meu futuro passo na literatura? Desconfio que não escreverei mais. Mas é verdade que outras vezes desconfiei e no entanto escrevi. O que, porém, hei de escrever, meu Deus?
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Não deixe seu café esfriar
Marginália de
Luana Gabriela
Para escrever, preciso de um café fumacento. O primeiro surge pela manhã, e então é como se recebesse um abraço caloroso quando o líquido preto invade com graça os vãozinhos horizontais tão brancos do copo de plástico. Em casa, quem tem vez são xícaras de alças grandes. Dia desses reparei que tenho uma coleção delas. Há uma do meu time preferido – a essa altura do campeonato não vale a pena mencionar qual é –, estreita. Outra é verde por fora e azul por dentro. Feia essa, quase não uso. Uma outra, toda preta, é marota e esconde o perigo. É que, súbito, o café se confunde com o interior do recipiente: penso que há menos e queimo a boca; sinto que há mais e não há nada. Tenho de olhar para o fundo para conferir se o vazio já chegou. No meio do processo, porém, os óculos embaçam. E então realmente não distinguo uma coisa da outra.
O fato é que constatei e estou pronto para assumir: tenho um vício. Pois sim. Terríveis, insuportáveis, malditos, são os feriados em que trabalho no jornal. Não pelo dia em si – claro que preferiria estar em uma praia a escrever algumas mal-traçadas, mas o fato é que adoro o que faço –, e sim pela ausência insubstituível daquela garrafa corpulenta, que estampa em letras convidativas: “café amargo”.
Já aconteceu, em plantões de feriados ou de finais de semana, de levantar em busca do líquido renovador, sagrado, e dar de cara com uma mesa triste e vazia, em que só o açucareiro e a toalhinha são testemunhas. Nessas horas viro uma espécie de sonâmbulo desperto. Imagine alguém com os braços esticados em direção à mesa sobre a qual deveria (deveria!) estar o café.
Deve ter acontecido também o seguinte. Sentar-me em frente ao computador e, ato-reflexo, esticar o braço direito em busca do copo fumegante. O café tem seu cantinho, como não. Fica ali, entre a divisória de madeira e o mouse. Tudo planejadinho.
E, veja, alguns copos se rebelam. Não sei se porque os ignoramos frente às tarefas do dia. Notei: os cafés que fogem do copo são sempre os frios. E aí dói. É uma lástima vê-lo ganhar vida rapidamente e acompanhar seu percurso por toda a extensão da mesa, enegrecendo papéis, se infiltrando devagarinho por debaixo do teclado, deixando marcas, cheiros. O conselho é: nunca deixe seu café esfriar.
Também noto suas alterações de humor. Há algumas quartas-feiras, Ele (a essa altura já cabe uma distinção), estava fraco. Como se tivesse sido coado duas vezes, o pobre. Não sei. Percebi logo pela cor. Era um preto turvo, indefinido. Sem graça. Tomei rápido, antes que esfriasse.
Mas, como desse a volta por cima, numa sexta-feira pra lá de corrida Ele surgiu portentoso, em seu melhor traje. Parecia até feito daqueles grãos especiais, limitados, cheios de tabelinhas e nove horas. O copo, coloquei no cantinho propício – arrumei a papelada para evitar maiores problemas –, e Ele me acompanhou, firme, durante uma matéria inteira. Nesse mesmo dia foram mais dois copos. Na verdade um, porque os encho pela metade. Agora a xícara toda preta me olha e o café vai esfriando, em silêncio traiçoeiro. Melhor acabar logo com isso.
Texto de Cristiano Castilho - Publicado na Gazeta do Povo Online
Sweet cherry ...
Marginália de
Luana Gabriela
It's all right, baby blue,
gostaria de te falar sobre detalhes técnicos da minha vida, sobre minhas recorrentes crises existenciais e sobre tua chegada. assim você decide se meu lado nonsense te convence. já que você resolveu viver na minha vida, você precisa saber que eu sou inconstante. do tipo que muda quando é lua cheia sabe? e eu vivo confusa, sem saber direito que decisões deveria tomar sobre coisas sérias, e também sobre coisinhas muito bobas. sei que posso te deixar confuso às vezes quando começo a falar feito uma esquizofrênica sobre minhas ansiedades, mas com o tempo você vai entender, ou não. é que já fui pequena e grande, fui lá onde acham que é o topo da alegria, fechei o olho e pulei, e adivinha?poft! depois disso parei no tempo enquanto o mundo girava, e quando dei por mim, eu já havia me perdido de sonhos que eu trazia comigo há muito tempo. andei por caminhos tortos, e toda vez que dava um passo, o mundo parecia mudar de lugar, tornando tudo mais longe de mim. nesse caminho aprendi que ser feliz não é coisa à toa, e que ser dois não é só um mais um. mas tive mais certeza ainda que ser sozinha é muito difícil, e não tava rolando pra mim sabe? admito que por um tempo foi divertido bancar a solteira independente, que não se envolve e nem se deixa levar por sentimentos baratos, mas quase sempre eu me sentia um fraude ambulante, vivendo uma farsa. porque a verdade é que eu sozinha por muito tempo, fico chorosa, e eu triste, não sirvo de companhia nem pra um cachorro pulguento. mas aí tu chegou mansinho, bem como eu acho que deve ser. pra mim né. tu completou sem invadir. confortou sem sufocar. tu chegou como uma cor clara, um tom nude, e foi colorindo até virar uma profusão de cores, matizes e tons. tudo ao mesmo tempo, colorindo minha vida. tu não chegou de um jeito devastador, como uma luz forte furta-cor me cegando, me confundindo toda, e sabe, há long long long time eu esperava algo assim. namoro na sala, amor com calma, com cor, música, cafuné, beijo e paz.
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O texto diz e-xa-ta-men-te o que eu quero dizer, mas não é meu! É da querida Luna do Baila Comigo? que junto com a Fê Bellusci tem um plano para dominar minha mente! ;)
Quase 200 seguidores, pra você que segue e lê Obrigada, pra você que segue e não lê (não vou escrever nada) e pra você que me lê, mas não me segue Obrigada também!
Bjos
Cause I understand, Do you?
Marginália de
Luana Gabriela
Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.
Clarice Lispector
Quando fico em silêncio me escondo na palavra alheia
Marginália de
Luana Gabriela
Tenho trabalhado tanto, mas penso sempre em você. Mais de tardezinha que de manhã, mais naqueles dias que parecem poeira assentada aos poucos e com mais força enquanto a noite avança. Não são pensamentos escuros, embora noturnos. Tão transparentes que até parecem de vidro, vidro tão fino que, quando penso mais forte, parece que vai ficar assim clack! e quebrar em cacos, o pensamento que penso de você. Se não dormisse cedo nem estivesse quase sempre cansado, acho que esses pensamentos quase doeriam e fariam clack! de madrugada e eu me veria catando cacos de vidro entre os lençóis. Brilham, na palma da minha mão. Num deles, tem uma borboleta de asa rasgada. Noutro, um barco confundido com a linha do horizonte, onde também tem uma ilha. Não, não: acho que a ilha mora num caquinho só dela. Noutro, um punhal de jade. Coisas assim, algumas ferem, mesmo essas que são bonitas. Parecem filme, livro, quadro. Não doem porque não ameaçam. Nada que eu penso de você ameaça. Durmo cedo, nunca quebra.
Daí penso coisas bobas quando, sentado na janela do ônibus, depois de trabalhar o dia inteiro, encosto a cabeça na vidraça, deixo a paisagem correr, e penso demais em você. Quando não encontro lugar para sentar, o que é mais freqüente, e me deixava irritado, descobri um jeito engraçado de, mesmo assim, continuar pensando em você. Me seguro naquela barra de ferro, olho através das janelas que, nessa posição, só deixam ver metade do corpo das pessoas pelas calçadas, e procuro nos pés daquelas aqueles que poderiam ser os seus. (A teus pés, lembro.). E fico tão embalado que chego a me curvar, certo que são mesmo os seus pés parados em alguma parada, alguma esquina. Nunca vejo você – seria, seriam? Boas e bobas, são as coisas todas que penso quando penso em você. Assim: de repente ao dobrar uma esquina dou de cara com você que me prega um susto de mentirinha como aqueles que as crianças pregam umas nas outras. Finjo que me assusto, você me abraça e vamos tomar um sorvete, suco de abacaxi com hortelã ou comer salada de frutas em qualquer lugar. Assim: estou pensando em você e o telefone toca e corta o meu pensamento e do outro lado do fio você me diz: estou pensando tanto em você. Digo eu também, mas não sei o que falamos em seguida porque ficamos meio encabulados, a gente tem muito pudor de parecer ridículos melosos piegas bregas românticos pueris banais. Mas no que eu penso, penso também que somos meio tudo isso, não tem jeito, é tudo que vamos dizendo, quando falamos no meu pensamento, é frágil como a voz de Olívia Byington cantando Villa-Lobos, mais perto de Mozart que de Wagner, mais Chagal que Van Gogh, mais Jarmush que Win Wenders, mais Cecília Meireles que Nelson Rodrigues.
Tenho trabalhado tanto, por isso mesmo talvez ando pensando assim em você. Brotam espaços azuis quando penso. No meu pensamento, você nunca me critica por eu ser um pouco tolo, meio melodramático, e penso então tule nuvem castelo seda perfume brisa turquesa vime. E deito a cabeça no seu colo ou você deita a cabeça no meu, tanto faz, e ficamos tanto tempo assim que a terra treme e vulcões explodem e pestes se alastram e nós nem percebemos, no umbigo do universo. Você toca minha mão, eu toco na sua.
Demora tanto que só depois de passarem três mil dias consigo olhar bem dentro dos seus olhos e é então feito mergulhar numas águas verdes tão cristalinas que têm algas na superfície ressaltadas contra a areia branca do fundo. Aqualouco, encontro pérolas. Sei que é meio idiota, mas gosto de pensar desse jeito, e se estou em pé no ônibus solto um pouco as mãos daquela barra de ferro para meu corpo balançar como se estivesse a bordo de um navio ou de você. Fecho os olhos, faz tanto bem, você não sabe. Suspiro tanto quando penso em você, chorar só choro às vezes, e é tão freqüente. Caminho mais devagar, certo que na próxima esquina, quem sabe. Não tenho tido muito tempo ultimamente, mas penso tanto em você que na hora de dormir vezemquando até sorrio e fico passando a ponta do meu dedo no lóbulo da sua orelha e repito repito em voz baixa te amo tanto dorme com os anjos. Mas depois sou eu quem dorme e sonha(...).
Caio Fernando Abreu
“Carta Anônima”
Medo, era medo de errar
Marginália de
Luana Gabriela
"Não suportamos mesmo aquilo ou aqueles que poderiam nos tornar mais felizes e menos sós? Não, não suportamos essa doçura.
Cheio de carinho, remexeu no doce, sem empurrar o prato. Preferia a fome: só isso. Pelo longo vício da própria fome — e seria um erro, porque saciar a fome poderia trazer, digamos, mais conforto? — ou de pura preguiça de ter que reformular-se inteiro para enfrentar o que chamam de amor...
Ainda pensou: gosto tanto de você, baby. "
Cheio de carinho, remexeu no doce, sem empurrar o prato. Preferia a fome: só isso. Pelo longo vício da própria fome — e seria um erro, porque saciar a fome poderia trazer, digamos, mais conforto? — ou de pura preguiça de ter que reformular-se inteiro para enfrentar o que chamam de amor...
Ainda pensou: gosto tanto de você, baby. "
Caio F. Abreu
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De tudo que sinto hoje, o único sentimento que consigo definir é : medo.
A outra metade não importa muito.
Marginália de
Luana Gabriela
Me deixou como um recuerdo uma falta de gosto pelas pessoas & coisas.. Trata-se de uma decepção diferente: não penso obsessivamente, não tenho vontade nenhuma de ligar nem de escrever cartas, não tenho ódio nem vontade de chorar. Em compensação também não tenho vontade de mais nada. Uma grande, uma enorme, uma devastadora falta de saco para qualquer pessoa.
...
Não consigo escrever, não tenho tentado. Fico me enganando. Tenho pensado numas coisas muito cruéis a respeito. Sempre pensei que literatura justificava minha vida. Começo a perceber que. Não sei que começo a perceber. Tenho medo de não escrever nunca mais. Escorregar cada vez mais fundo nesse esvaziamento.
Deixa pra lá.
...
Carta queixosa, depressiva. 50% é astral de gripe. A outra metade não importa muito.
Caio F. à Maria Clara (80/82)
So easy
Marginália de
Luana Gabriela
| Me dê mais amor do que eu já tive, | |||
| Faça tudo ficar melhor quando eu estiver me sentindo triste, | |||
| Diga-me que sou especial até mesmo quando eu sei que não sou. | |||
| Faça-me sentir bem quando estou machucado demais, | |||
| Raramente ficando chateadao | |||
| Eu estou tão contente que te encontrei. | |||
| Eu amo estar perto de você. | |||
| Você torna isso fácil, | |||
| Tão fácil quanto 1, 2, 1, 2, 3, 4. | |||
| Há apenas uma coisa, | |||
| A fazer, três palavras, | |||
| Para você. | |||
| Eu te amo (eu te amo) | |||
| Há apenas uma maneira, | |||
| De dizer aquelas três palavras | |||
| É isso que vou fazer. | |||
| Eu te amo (eu te amo) | |||
| Me dê mais amor desde o início, | |||
| Recomponha-me quando eu estiver desmoronando, | |||
| Conte-me coisas que você jamais contou aos seus amigos mais próximos. | |||
| Faça-me sentir bem quando estou machucado demais, | |||
| O melhor que já tive, | |||
| Eu estou tão contente que te encontrei. | |||
| Eu amo estar perto de você. | |||
| Você faz isso fácil, | |||
| Tão fácil quanto 1, 2, 1, 2, 3, 4. | |||
| Há apenas uma coisa, | |||
| A fazer, três palavras, | |||
| Para você. | |||
| Eu te amo (eu te amo) | |||
| Há apenas uma maneira, | |||
| De dizer aquelas três palavras | |||
| É isso que vou fazer. | |||
| Eu te amo (eu te amo) | |||
| Eu te amo (eu te amo) | |||
| Você faz isso fácil, | |||
| Tão fácil quanto 1, 2, 1, 2, 3, 4. | |||
| Há apenas uma coisa, | |||
| A fazer, três palavras, | |||
| Para você. | |||
| Eu te amo (eu te amo) | |||
| Há apenas uma maneira, | |||
| De dizer aquelas três palavras | |||
| É isso que vou fazer. | |||
| Eu te amo (eu te amo) | |||
| Eu te amo (eu te amo) | |||
| Um, dois, três, quatro. | |||
| Eu te amo (eu te amo) | |||
| Trilha: 1, 2, 3, 4 - Plain White T's |
Sobre o que eu já não mais suporto (em mim, nos outros)
Marginália de
Luana Gabriela
Mas não se pode agir assim, a amiga avisou no telefone. Uma pessoa não é um doce que você enjoa, empurra o prato, não quero mais. Tentaria, então, com toda a delicadeza possível, sem decidir propriamente decidiu no meio da tarde — uma tarde morna demais, preguiçosa demais para conter esse verbo veemente: decidir. Como ia dizendo, no meio da tarde lenta demais, escolheu que — se viesse alguma sofreguidão na garganta, e veio — diria qualquer coisa como olha, tenho medo do normal, baby.
Só que, como de hábito, na cabeça (como que separada do mundo, movida por interiores taquicardias, adrenalinas, metabolismos) se passava uma coisa, e naquele ponto em que isso cruzava com o de fora, esse lugar onde habitamos outros, começava a região do incompreensível: Lá, onde qualquer delicadeza premeditada poderia soar estúpida como um seco: não. E soou, em plena mesa posta.
Tanto pasmo, depois. Sozinho no apartamento, domingo à noite. Todas as coisas quietas e limpas, o perfume adocicado das madressilvas roubadas e o bolo de chocolate intocado no refrigerador — até a televisão falar da explosão nuclear subterrânea. Então a suspeita bruta: não suportamos aquilo ou aqueles que poderiam nos tornar mais felizes e menos sós. Afirmou, (...), reformulou, repetiu, acrescentou esta interrogação: não suportamos mesmo aquilo ou aqueles que poderiam nos tornar mais felizes e menos sós? Não, não suportamos essa doçura.
Puro cérebro sem dor perdido nos labirintos daquilo que tinha acabado de acontecer. Dor branca, querendo primeiro compreender, antes de doer abolerada, a dor. Doeria mais tarde, quem sabe, de maneira insensata e ilusória como doem as perdas para sempre perdidas, e portanto irremediáveis, transformadas em memórias iguais pequenos paraísos-perdidos. Que talvez, pensava agora, nem tivessem sido tão paradisíacos assim.
Porque havia o sufocamento daquela espécie de patético simulacro de fantasia matrimonial provisória, a dificuldade de manter um clima feito linha esticada, segura para não arrebentar de súbito, precipitando o equilibrista no vazio mortal. Cheio de carinho, remexeu no doce, sem empurrar o prato. Preferia a fome: só isso. Pelo longo vício da própria fome — e seria um erro, porque saciar a fome poderia trazer, digamos, mais conforto? — ou de pura preguiça de ter que reformular-se inteiro para enfrentar o que chamam de amor, e de repente não tinha gosto?
De onde vem essa iluminação que chamam de amor, e logo depois se contorce, se enleia, se turva toda e ofusca e apaga e acende feito um fio de contato defeituoso, sem nunca voltar àquela primeira iluminação? Espera, vamos conversar, sugeriu sem muito empenho. Tarde demais, porta fechada. Sozinho enfim, podia remexer em discos e livros para decidir sem nenhuma preocupação de harmonia-com-o-gosto-alheio que sempre preferira um Morrison a Manuel Bandeira. Sid Vicious a Puccini. A mosca a Uma janela para o amor, (...)
Mas os escritores são muito cruéis, você me ama pelo que me mata (...)
Não muito confuso, assim confrontado com sua explícita incapacidade de lidar com. A palavra não vinha. Podia fazer mil coisas a seguir. Mas dentro de qualquer ação, dentes arreganhados, restaria aquela sua profunda incapacidade de lidar com.
(...) ainda pensou: gosto tanto de você, baby. Só que os escritores são seres muito cruéis, estão sempre matando a vida à procura de histórias. Você me ama pelo que me mata. E se apunhalo é porque é para você, para você que escrevo — e não entende nada.
Caio Fernando Abreu - Anotações Insensatas
[Would look back and not regret a thing] Paramore
Marginália de
Luana Gabriela
Imagem por: Kurt Halsey
"Não se acostume com o que não o faz feliz,
revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças,
mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado,
comece novamente.
Se estiver tudo certo,
continue..."
Fernando Pessoa
E para todos:
Feliz 2010!
[Cause I can't tell you what I think I really want] J.M
Marginália de
Luana Gabriela
"eu tenho uma porção de coisas pra te dizer, dessas coisas assim que não se dizem costumeiramente, sabe, dessas coisas tão difíceis de serem ditas que geralmente ficam caladas, porque nunca se sabe nem como serão ditas nem como serão ouvidas, compreende? ... e se eu não te disser agora talvez não diga nunca mais, porque tanto eu como você sentiremos uma falta enorme dessas coisas, e se elas não chegarem a ser ditas nem eu nem você nos sentiremos satisfeitos com tudo que existimos, porque elas não foram existidas completamente, entende, porque as vivemos apenas naquela dimensão em que é permitido viver, ... não me entenda mal, mas é que a gente tem tanto medo de penetrar naquilo que não sabe se terá coragem de viver, no mais fundo, eu quero dizer... existem coisas que a gente ainda não pensou, que a gente talvez nunca pense, eu, por exemplo, nunca pensei que houvesse alguma coisa a dizer além de tudo o que já foi dito, ou melhor pensei sim, não, pensar propriamente dito não, mas eu sabia, é verdade que eu sabia, que havia uma outra coisa atrás ... atrás dos silêncios, ... deixa eu te dizer ... que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado para que você crescesse livremente, você não cresceria se eu a mantivesse presa num pequeno vaso, eu compreendi a tempo que você precisava de muito espaço,... por favor, me ajuda, senão vai ser muito tarde, daqui a pouco não vai mais ser possível, e se eu não disser tudo não poderei nem dizer e nem fazer mais nada, é preciso que a gente tente de todas as maneiras, é o que estou fazendo, ... mas agora escuta: eu queria te dizer uma porção de coisas, de uma porção de noites, ou tardes, ou manhãs, ... eu queria era te dizer dessas vezes em que eu te deixava e depois saía sozinho, pensando também nas coisas que eu não ia te dizer, porque existem coisas terríveis, eu me perguntava se você era capaz de ouvir, sim, era preciso estar disponível para ouvi-las, ... Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende? ... Ah: sabe, entre duas pessoas essas coisas sempre devem ser ditas, ... fico só querendo te dizer de como eu te esperava quando a gente marcava qualquer coisa, de como eu olhava o relógio e andava de lá pra cá sem pensar definidamente e nada, mas não, não é isso, eu ainda queria chegar mais perto daquilo que está lá no centro e que um dia destes eu descobri existindo, porque eu nem supunha que existisse, ... espera um pouco, eu vou te dizer de todas as coisas, é por isso que estou falando, se você não prestar muita atenção você não vai conseguir entender nada, ... é fundamental que você escute todas as palavras, todas, e não fique tentando descobrir sentidos ocultos por trás do que estou dizendo, sim, eu reconheço que muitas vezes falei por metáforas, e que é chatíssimo falar por metáforas, pelo menos para quem ouve, e depois, você sabe, eu sempre tive essa preocupação idiota de dizer apenas coisas que não ferissem, ... vou dizer tudo numa só frase,......... ............ ............. ............ .......... ........... ............. ............ ............ ............ ......... ........... ............ ............ sim, eu sei, eu vou escrever, não eu não vou escrever, eu quero te dizer uma porção de coisas, será que vai dar tempo? ... está tudo definido aqui dentro, olha, eu ainda não disse tudo, e a culpa é única e exclusivamente sua, por que você fica sempre me interrompendo e me fazendo suspeitar que você não passa mesmo duma simples avenca? Eu preciso de muito silêncio e de muita concentração para dizer todas as coisas que eu tinha pra te dizer, olha, antes de você ir embora eu quero te dizer quê. " .Caio Fernando Abreu .
-Eu estou com um pouco de medo de onde isso pode nos levar - J.L.H
Marginália de
Luana Gabriela
- Me explica, que às vezes tenho medo - CFA
Marginália de
Luana Gabriela
"Noite de janelas semiabertas para acolher um sinal da primavera. Noite de cobertores e lembranças que deixam dúvidas e um sabor um pouco mais amargo na boca. Niki gira de um lado para o outro. O passado às vezes torna os travesseiros incômodos. Mas o que é o amor? Existe uma regra, uma forma, uma receita? Ou tudo é casual e você só deve esperar ter sorte? Perguntas difíceis enquanto o relógio...assinala a meia-noite."
"Desculpa se te chamo de amor"
Frederico Moccia
[Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas] Carlos Drummond de Andrade
Marginália de
Luana Gabriela
Yes you can hold my hand if you want to'cause
"Dar a mão a alguém sempre foi o que esperei da alegria"
Clarice Lispector
- Para que rimar amor com dor? -
Marginália de
Luana Gabriela
"O Amor...
É difícil para os indecisos.
É assustador para os medrosos.
Avassalador para os apaixonados!
Mas, os vencedores no amor são os fortes.
Os que sabem o que querem e querem o que têm!
Sonhar um sonho a dois,
e nunca desistir da busca de ser feliz,
é para poucos!"
Trilha: Além do que se vê - Los Hermanos
[ Moça,
Olha só,
o que eu te escrevi
É preciso força pra sonhar
e perceber
Que a estrada vai
além do que se vê]
- se eu peco é na vontade de ter um amor de verdade - Los Hermanos
Marginália de
Luana Gabriela
Trilha: Your song - Elton John
[De qualquer maneira, bom... o que eu realmente quero dizer
É que seus olhos são os mais doces que já vi.]
"Que te dizer? Que te amo, que te esperarei um dia numa rodoviária, num aeroporto, que te acredito, que consegues mexer dentro-dentro de mim? É tão pouco. Não te preocupa. O que acontece é sempre natural — se a gente tiver que se encontrar, aqui ou na China, a gente se encontra. Penso em você principalmente como a minha possibilidade de paz — a única que pintou até agora, “nesta minha vida de retinas fatigadas”. E te espero. E te curto todos os dias. E te gosto. Muito. Tô morando, trabalhando, estudando e amando. Esses são os quatro foles da minha vida, no momento, e sobre cada um deles eu teria milhares de páginas a preencher"
Caio Fernando Abreu
"Total contradição do amor: queremos conhecer quem amamos e, ao mesmo tempo, desejamos que seja imprevisível." FC
- Devia ter me importado menos - Titãs
Marginália de
Luana Gabriela
“Fim de tarde. Dia banal, terça, quarta-feira. Eu estava me sentindo muito triste. Você pode dizer que isso tem sido frequente demais, até mesmo um pouco (ou muito) chato. Mas, que se há de fazer, se eu estava mesmo muito triste? Tristeza-garoa, fininha, cortante, persistente, com alguns relâmpagos de catástrofe futura. Projeções: e amanhã, e depois? e trabalho, amor, moradia? o que vai acontecer? Típico pensamento-nada-a-ver: sossega, o que vai acontecer acontecerá. Relaxa, baby, e flui: barquinho na correnteza, Deus dará. Essas coisas meio piegas, meio burras, eu vinha pensando naquele dia. Resolvi andar.”
Caio Fernando Abreu ( em Pequenas Epifanias )
Trilha: Dead Fish - Descartáveis
[A humanidade é o produto
Sempre atrás de bonificações
Porque tudo está à venda]
- posso contar meus pesadelos e até minhas coisas fúteis - JQ
Marginália de
Luana Gabriela
Fui numa floricultura comprar pratinhos de vasos.
Três pratos. De diferentes cores, de azulejo e barro.
Não receio pedir pouco. O pouco é que me basta. O pouquíssimo transborda.
Eu me sinto essencial lembrando o desnecessário. Ouvindo o suspiro dentro do vento.
Ninguém dá valor ao pratinho das plantas que racha na mudança de lugar e não é reparado, muito menos reposto. Eu não vivo sem eles. É como faltar talheres para um membro da família.
É o pratinho de vaso que me mantém acordado. Deslumbrado pela sua fugacidade. Porque amanhã terei que me lembrar novamente. E depois de amanhã. E sempre.
O amor é o que não lembramos para continuar lembrando. Como pedir ao filho escovar os dentes ou insistir que faça os temas. Todo dia será exaustivamente igual: é uma atenção renovada, não exclusiva. Uma dedicação nula. Uma devoção secreta que não traz fama e reconhecimento. Coisas simples que não podem ser contadas ou glorificadas durante a semana. Que são apagadas no mesmo momento do ato. Não irei ao bar proclamar aos colegas de que dobrei as calças antes de sair e organizei as camisas pela antiguidade.
É o que me põe apaixonado numa mulher: o pratinho do vaso. O que é sem graça, o que somente protege, mas que é confidente das raízes. O quanto ela é capaz de estar ao seu lado sem que necessite imortalidade. O quanto me torno observador das inutilidades. Falei inutilidades, pois é, não errei a digitação, quem ama conserva as inutilidades. Os interesseiros e ambiciosos guardarão as informações essenciais como nascimento e medidas. Veja se um homem a quer quando se interessa porque aquilo que não gera interesse. O fútil é o fundamental. No momento em que o desejo não descobre o que é importante e preserva tudo.
O pratinho do vaso do relacionamento está em saber o xampu que ela usa, o restaurante preferido, o doce da infância, sua mania de comer aipim com mel, o azeite (não é qualquer um), as perguntas que detesta ouvir, como ela gosta de amassar o travesseiro, quais os insetos que tem medo, o que não pode deixar de assistir na tevê, o drinque preferido, os amigos da choradeira, os amigos do riso, o que toma no café da manhã, qual a fruteira de sua confiança.
O pratinho do vaso é o que fica da tempestade.
Fabrício Carpinejar
- escrever é enfiar o dedo na garganta - CFA
Marginália de
Luana Gabriela
Blog traduz uma prova de resistência. Um big brother ao avesso dos gêneros literários. Ao invés de ser conhecido, corresponde a um mergulho adoidado no anonimato. Distinto da noção do senso comum de que se trata de um lugar para aparecer. O resultado final (a possível badalação de um endereço virtual) não expõe a realidade. Os exibidos foram antes tímidos, os extrovertidos foram antes introvertidos. É a mais dolorida experiência editorial. O mais severo teste vocacional. Uma ferramenta capaz de sugar sua vida ou sua aspiração.
Indica a fronteira entre o amador e o escritor, entre o diletante e o renitente, entre o curioso e quem não consegue se afastar da compulsão narrativa. O amador cansará nos primeiros meses. Vai deduzir que não vale a pena o trabalho, que ninguém lê. Uma tortura postar textos durante três meses e não receber nenhum comentário.
São os quarenta dias do deserto, com as tentações sobrevoando o teclado.
Você pensou que aquilo seria a glória instantânea. Caprichou na redação, no humor e nas perspectivas singulares de captura do cotidiano. Mas o único que entra no site é você. Trinta vezes ao dia. Chega a esbarrar consigo entre tantos acessos e atualizações. Uma miragem. Cada texto é um quarto vago. O desespero o obriga a fazer atos impensáveis: entrar de computadores diversos para fazer com que o contador se mexa de alguma forma. Assim como um atacante chuta a bola para as redes alheio à marcação do impedimento. Para se livrar do azar. Ainda que esteja quebrando uma das regras básicas do jogo e leve um cartão amarelo. Não há nem juiz para lhe dar cartão amarelo.
Percebe que lançou um texto com um erro gravíssimo de português. Estava na rua quando lembrou a indecisão ortográfica, longe de qualquer terminal. Foi observando um outdoor. Corre para uma lan house, consome seu suspiro sem sentir o gosto, arruma e conclui que tampouco alguém reparou.
Decide escrever qualquer coisa que continuará sendo qualquer coisa. O isolamento do blog produz alucinações. O contador de visitas parece uma bomba-relógio: anda para trás.
Depois de postar, o autor perde a privacidade para se tornar - teoricamente - domínio público. Mas não saiu do caramujo do quarto, e entenderá que escrever e ser conhecido não acontece simultaneamente.
Há a idéia equivocada de que todos os leitores do mundo estão esperando sua publicação, que basta acenar para a luz do sol que imediatamente será linkado, sugerido, alardeado. Ao deixar minha casa, não recebo nenhuma proposta sedutora no caminho. Nunca encontrei nenhum editor no metrô. O que me leva a constatar que o blog é o metrô da internet.
Escrever na rede é uma tentativa de suicídio, chamar atenção dos outros para a nossa carência. Um aviso escandaloso da nossa fragilidade. Pensando bem: publicar é um suicídio frustrado. Quando o ímpeto de sair da vida é usado para entender a própria vida e as dificuldades enfrentadas pelos demais autores.
Uma das virtudes do blog é justamente sua provação. Agüentar os contratempos no osso. Ver que não é um elogio que o fará continuar, muito menos uma crítica que o fará desistir. Que nascer para a letra é amar a insuficiência. O escritor se sucede progressivamente. Melhora. Estar sozinho é ainda estar povoado. Povoado por dentro. Pelos personagens, pelas histórias familiares, pela observação aprofundada dos seus arredores. Só quem foi fantasma um dia poderá alimentar seus fantasmas.
Procura-se um reconhecimento externo e encontra-se algo mais preciso: a afirmação pessoal na persistência. Procura-se lá fora o que já se tinha. Como diz Santo Agostinho:
“Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim.”
O esforço de sair da solidão ajuda curiosamente a fortalecê-la. Compreende que não escreve para completar um diário, ou para repetir sua história, se fosse assim não contaria com assunto para atualização semanal, mesmo que desfrutasse de uma trajetória acidentada e heróica como a de Hemingway.
Escreve para duvidar e se banhar na luminosidade da confusão biográfica. Acima de tudo, compreende que a imaginação não julga como a memória. Que imaginar é delicioso, imaginar: uma memória sem culpa.
Um texto postado é como um texto impresso. Mais fácil para localizar os erros, os tropeços, formar distanciamento. Confere uma maioridade na escrita, reforça uma postura profissional de jardinar e cuidar do verbo, de alterar a prosa e a poesia em nome da transparência e da fluidez. Há a formação gradual de uma assinatura, transmitindo uma visão de ser responsável por aquilo que se diz, de assumir honestamente as dívidas da boca. Organiza-se o rascunho, que é bem mais duro do que redigi-lo.
Não é fácil a rotina da blogosfera. Terá que superar vários fins, várias negativas, várias mortes. Superar a expectativa de fama pelo prazer do texto.
Por isso, o prazer necessita ser mais forte do que a dor. O masoquista é o que gosta mais do sofrimento do que da carícia. O blogueiro é o que esquece a ferida pela alegria.
A diferença entre guardar o inédito no blog e na gaveta: o blog é uma gaveta aberta.
Fabricio Carpinejar
Ps: Este texto vai como um agradecimento as outros blogueiros (as) que passam por aqui! Obrigada!
Trilha: The Cranberries - Stars
[As estrelas estão brilhantes esta noite,
uma distância nos separa
E eu ficarei bem,
o pior que eu já percebi em nós
Ainda tenho minhas fraquezas,
ainda tenho minha força]
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