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Insaciável

Chove. É domingo. E não sei exatamente o que sentir. Toca “she will be loved”, você está na cozinha preparando algo para o almoço. Eu na sala, lendo Gabito Nunes. Você e ele me despertam apetites e fomes insaciáveis. Ele de literatura contemporânea, você de algo muito mais complexo.

Eu sinto fome de olhares desconcertantes, de brincar de brigar, de cenas dramáticas nas nossas despedidas, de beijos doces, do seu calor no meu sofá. Leio Gabito e penso que você não é assim. E eu sou demais. Muito lirismo pra pouco sentimento, eu penso. Faz quanto tempo? Seis meses, e nenhuma vez pronunciamos a palavra amor. E suas derivadas frases: eu te amo, amo você, meu amor. De fora talvez pensem que somos mais conveniência sentimental que qualquer outra coisa.

De fora. Porque aqui dentro uma avalanche de emoções me sufoca, eu tento me levantar e me recuperar do impacto de ter caído tão fundo e tão rápido no teu abraço. Mas eu não me recupero. Estou cada vez mais sufocada por teu perfume entorpecente, por teu peito que me abriga, por teus lábios que me secam as lágrimas, por tua boca que me alimenta. Tão intenso é isso, que te olho de longe, experimentando o tempero do molho, e tenho vontade de correr pra qualquer lugar que seja longe o distante de você, que eu não consiga experimentar a sensação de querer e ter. Estranho, eu sei.

Já falei de avalanches, temperos, e nada diz exatamente o que eu queria dizer. Que sinto falta do teu beijo, da tua voz em meu ouvido, de teus dedos me dedilhando, de teu braço me protegendo, de teu peito como travesseiro, de ter você no meu sofá, enquanto me arrumo pra mudar de casa, e morar em você. Eu sinto cada vez mais fome do que você me dá. Se existe obesidade sentimental, me coloquem na fila do SUS para a cirurgia de redução, estou morbidamente insaciável de você.

Luana Gabriela
15/05/2011

Mais uma vez

Estou pensando em te ligar. Mas apaguei seu telefone de todas as minhas agendas, não será possível. Você ligou esses dias, na minha casa. Sem nem saber se eu estaria lá naquele horário. A gente falou sobre tudo, inclusive a gente. A possibilidade de um Ap só nosso. Você disse que teríamos de casar, eu rejeitei a ideia. O tempo em que eu gostaria (e muito) de casar com você passou há pelo menos seis anos. E nesse tempo muita coisa mudou, menos nós dois juntos.

Da última vez que saímos, segundo você, assistimos um filme super bonito. Eu não me lembro, e você se chateou por isso. Em silêncio eu me questionei: por que é que eu ainda insisto em te procurar quando minha carência aperta? E por que você está sempre tão disponível? E por que eu nunca aceito que você me leve até em casa, e vou sozinha, enfrentando o medo que sinto da noite, da rua, da solidão? Por que eu não nos deixo existir como tanta gente já supôs todo esse tempo? Por que me pergunto tudo isso agora? E por que em todo esse tempo você não teve mais ninguém?

Eu não preciso mais do que isso, que a gente já tem, embora eu queira mais que isso, às vezes. Não sempre. Hoje eu queria te ligar, falar que eu aceito ir com você naquele festival de música, dizer que você pode me trazer pra casa, que tudo bem eu aceito suas condições (aquelas que você quis me impor há cinco anos, e eu disse não), porque agora elas também são as minhas condições. Eu ia dizer que vamos ao cinema e que eu não vou mais esquecer nenhum dos filmes que a gente for ver. Eu queria te ligar, eu queria talvez, começar tudo de novo. Queria entender essa relação inexistente no campo prático e duradoura na possibilidade. Queria acabar logo com isso, dando certo ou não. Mas eu apaguei seu telefone, e você só vai me ligar no meu aniversário, em dezembro. Até lá estou presa na possibilidade de você, o que nunca me impediu de considerar outras possibilidades.

Meu telefone toca, não é você. Atendo e digo sim. Você vai ter de ficar pra depois, de novo.

Luana Gabriela
09/05/2011

Trocando em miúdos


E senti vontade de pegar o violão, pela primeira vez desde que você partiu. Já era tarde da noite, eu dedilhando qualquer coisa, meio sem sentido, exatamente como andava minha vida. Sem rumo, sem ritmo, eu travava na troca de um acorde para outro, eu travava na hora de sorrir, eu havia esquecido. Sorrir é como tocar violão, a gente sabe, mas depois de um tempo sem fazer a gente trava até pegar o jeito novamente.

Aos poucos as músicas saíram, assim como os sorrisos. A primeira soou como um desabafo, “I use to loved her, but i have to kill her”, em algumas horas fui de Gun´s a John Mayer. Fui do ódio ao melancólico amor. Não o amor que ainda existe, o amor que já existiu e foi embora tão completamente a ponto de não trazer cheiros, desejos, gostos. Você sabe que um amor já foi embora quando consegue fechar os olhos e não lembrar do beijo. Fechei os olhos. E nada. Sua lembrança era tão vaga quanto a lembrança da fórmula de báskara. E eu nunca fui bom em matemática.

Você diria agressivamente, mesmo quando estávamos bem, que eu na verdade não sou bom em nada. Talvez, o amor não tenha ido embora quando você ainda sabe o que o outro diria. Afasto esse pensamento, não toco nenhuma daquelas músicas que eram nossas, não me permito. O que me incomoda no fim das relações são as músicas que não poderão mais tocar. Depois de você como ouvir, Please don´t stop the rain? Depois de nós dois, como cantarolar, de olhos fechados e com sorriso cúmplice, o refrão “I've found out a reason for me, to change who I used to be, a reason to start over new, and the reason is you”?

Depois de você eu só desejo um amor menos estrangeiro. Um amor pronunciado no mesmo idioma, um amor sem tradução. Um amor que saiba o que é saudade. Um amor que se deixe levar no dedilhado de alguma canção da bossa nova, embalado pelo timbre doce de Caetano, Vinicius, Jobim, Toquinho. Ela amarrando os cabelos, deixando a nuca à mostra, resmungando, para não sobrepor o som que vem do quarto “O meu amor tem um jeito manso que é só seu, que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos...”.  Depois de você, só quero um amor digno das canções de Chico Buarque. 


Luana Gabriela
Abril 2011

O óbvio utópico


Tenho pensando muito em você nestes últimos dias. Não com nostalgia, não com rancor, tão pouco saudade e amor. É que não há como negar o fato de tudo ter sido tão intenso e rápido, inclusive o fim. Nestes meses que se passaram eu fiz questão de esquecer tudo, mas agora enquanto busco uma xícara de café na cozinha, enquanto procuro um livro na estante, enquanto pinto as unhas, alguns flashs de nós dois me vêm à mente. De quando você me levou a sua casa pela primeira vez, de quando me mostrou onde ficam seus tesouros, de quando não havia medo, segredos, entre nós dois. Havia uma certeza de que eu não te magoaria e nem você o faria comigo.

Eu fico pensando em como tudo aconteceu. Se eu soubesse que era nosso último beijo, eu o teria guardado pra sempre. E não me lembro dele. Eu só lembro de caminhar contigo pela rua e dizer: pode ser a última vez que estamos nesse lugar, juntos. E foi. Há quase um ano, mas parece outra vida. Talvez eu não tenha culpa nenhuma, mas se te fiz sofrer, perdoa. Porque eu não queria ser alguém que aumenta sua dor, que coloca mais tijolos em sua barreira de proteção contra os perigos exteriores. Nossos perigos mais danosos estão dentro da gente. O veneno da mágoa, o veneno do medo de sofrer de novo. Eu não soube te amar de uma maneira ligth. Eu sou intensa. E eu achava mesmo que te amava, que tinha te escolhido, eu queria te cuidar, curar suas feridas interiores, quem sabe a gente pudesse curar juntos. A gente ria, a gente decorava cada cheiro, cada riso, cada centímetro dos nossos rostos, e hoje eu já não me lembro mais. Não houve uma foto nossa. Não houve uma música que marcasse. Não houve nada. Além dessa tentativa patética de misturar razão e emoção. Eu fui cedendo em meus princípios porque achava que você valia a pena. E hoje me encontro sem princípios definidos, muita culpa, e sem você.

Eu não sei como está agora. Tenho medo de te encontrar em algum shopping, algum, cinema, eu tenho medo, mas às vezes eu queria tanto isso. Para ver que reação meu coração vai ter. Que sentimento me trás, você de novo sob meu olhar. Eu não te quero pra mim. Eu nem mesmo sei porque estou pensando e escrevendo sobre tudo isso agora. Você nunca me leu. Em nenhuma das formas possíveis. Eu só queria te cuidar e descuidei de mim. Eu só queria te fazer feliz, me entristeci. Eu só queria te provar que você não era tão ruim, e você me fez crer que eu era muito pior que você. 

Luana Gabriela
Abril 2011

Nunca o amor


"Olha, senta aqui, não tá dando mais, acho que vou seguir um caminho diferente e mais fácil, não fala nada não, eu já me decidi." Gabito Nunes

Foi assim. Na verdade eu nem precisei sentar, estava deitada, numa quase madrugada e só ia te desejar boa noite, foi então que você escreveu em poucos caracteres que não dava mais: Vamos terminar logo. Que não era assim que você queria, que tudo agora está tão difícil pra você e pra mim, eu concordo.  Você termina, eu não discordo. Um fim assim silencioso, rápido, mas nem por isso indolor. Aquela noite foi escura em mim como nenhuma outra havia sido. Dormi pouco, mas acordei entendo que era assim que tinha de ser. Que nem tudo que é bom dura pra sempre, mas que por costume podemos deixar o mal perdurar: comodismo, que nada tem haver com amor.

Eu que já não sentia mais vontade de te ver, eu que já não te atendia, não te ligava e não te escrevia, eu que já não te contava nada sobre meus dias, continuei num silêncio absoluto, por meses até tentar falar com você pra gente quem sabe se entender.  Em resposta aos meus chamados, teu silêncio. Nem toda relação acaba em briga, muitas terminam em silêncio. Primeiro no meu, depois no seu. Não me arrependo, nem do meu silêncio inicial nem da minha tentativa final. Embora eu até hoje não saiba mesmo o porque te queria de volta, se há alguém, porque sempre há alguém, disposto a me dar o que você nunca quis: atenção.

Eu escolhi te amar, te dar uma chance, nos dar uma chance que você jogou fora. E eu, infantilmente, ignoro minha culpa e deixo de aprender com meus erros. Eu não quero aprender, eu quero um relacionamento maduro e isso só é possível com um homem maduro. Difícil quando eu não acho maturidade nem no meu pai. Eu vou levando, empurrando encontros pra outros dias, ignorando e-mails, mensagens e não atendendo telefonemas. Porque acho difícil. Porque aprendi a ceder, e vi que não valeu a pena. Porque reapreendi a dizer que amo, mas não acho que aquilo era amor. Porque acreditei num sorriso que se fechou em poucos meses, porque me senti protegida por mãos que digitaram palavras duras, porque eu esqueci da sua voz, que era o som mais bonito que eu tinha na memória.

Se eu me privo de coisas boas por isso? Claro que sim! Mas de real nessas relações, só as dores; de duradouras; só as mágoas, de eternas; as cicatrizes. Nunca o amor.

You 2

Ainda lembro da primeira vez que te vi. Seu cabelo preso, longo, nem loiro nem escuro, seu sorriso de bom dia, sua camisa desbotada do U2. Eu poderia reviver aquele momento pra sempre, e a sensação seria inédita. Cada detalhe seu me prende dias e dias. Nas horas que se seguiram eu não consegui pensar em mais nada além dos teus olhos, da tua voz, de tudo que eu não sei quanto tempo demoraria para ter de novo. Demorou, e eu guardei tudo que eu poderia saber de você naquele instante, por todos os instantes seguintes, até te conhecer e me afundar nos teus detalhes.

No seu cabelo solto, nas suas costeletas, nas suas rugas no canto dos olhos, que você detesta, e eu amo. Aquela fase da gente descobrir coisas sobre quem nos interessa não acaba nunca com você. Quando você me fala sobre seus momentos depressivos, é como se você me dissesse que sente muito, tudo, como eu sinto. E eu fico imaginando nosso futuro. Nossa casa com dois cabeludinhos, lendo. Nossa grande biblioteca, a gente dançando "see the stones set in your eyes", eu fico imaginando que estes momentos não deixem nunca de acontecer.

Mesmo nos dias em que a gente vai se ver em casa ou sair, eu fico te seguindo com os olhos pelos corredores do trabalho, não pra te controlar. Mas porque eu quero ver você, eu quero meu coração acelerando quando te observo de longe, quero minhas faces corando quando você percebe, e a gente precisa fingir que não é nada, além de um "Oi" casual ,  só colegas de profissão. Eu fico te querendo na minha sala, pra falar sobre livros, músicas e pessoas. Pra discutirmos o amor, o sexo e a independência na sociedade atual. Porque em casa eu só quero aproveitar teu colo, tua companhia silenciosa, brincar com teu cabelo. Levar a sério teus pedidos, te fazer mudar de ideia sobre o destino.

Mesmo sabendo que vou te encontrar em casa em alguns horas, quando você vai e eu fico, sobra um aperto no peito, quando você vai e eu não posso te abraçar, te beijar e dizer até logo, fica tudo como se você não fosse ninguém. Mas você é alguém, como eu, meu, pra mim. Quando você anda sozinho pela rua eu só quero que todo mundo saiba, que você não está só. Que você encontrou alguém que te quer tanto, tanto, que me sufoca esse querer. Que eu quase não consigo dizer. Eu estou em lágrimas agora, de sentir tão intenso isso, que não quero nomear. Meses se passaram daquela primeira vez, e eu ainda sinto aquela mesma sensação, ao te ver me esperando na porta da sua casa, no portão do meu condomínio, na fila do cinema, na mesa da cozinha. Quando eu olho pra você só consigo sentir coisas impronunciáveis, incomunicáveis em palavras, eu poderia continuar escrevendo páginas e páginas, e não acharia a palavra certa pra dizer que sensação é essa.

É você me consumindo, seu cheiro na minha pele, seu olhar refeletindo o meu, é seu braço em minha cintura, é seu cabelo em meu colo, é sua voz declamando "It's not if I believe in love but if love believes in me", é você em mim desde o primeiro dia.

Luana Gabriela
14/04/2011

Esquizofrenia

Eu sinto qualquer coisa parecida com culpa, pesar, dor. Ainda que as lágrimas não caiam, eu não grite, não teste minha resistência etílica e estomacal. Um vazio cheio. É que meu mal é pensar. E eu andei pensando. Se houvesse qualquer conselho a dar para os outros com relação a mim seria: Me faça sentir, tanto e tanto que não me sobre espaço para pensar. Pensar me estraga. Essa minha racionalidade me impede e muito de me entregar, acreditar, esperar qualquer coisa de homem algum. E falo da espécie não do gênero.


É que ainda sinto seu perfume na fronha - palavra estranha, que a gente já brincou tanto - ainda tenho sua letra no espelho do banheiro. Você foi com data marcada para voltar. E eu quero partir antes que você volte. Aquele meu medo de novo. Aquela coisa de achar que você não é pra vida inteira, que nós não somos pra vida inteira, e que a vida inteira talvez seja muito para ficar com alguém, e ficar só também. A vida inteira é muito. Pra esse pouco que eu tenho em mim agora. Me tornei tão cheia de mim mesma, e da minha solidão agradável que fico desconfortável ao te ceder espaço na pia, no armário, na minha vida. E ainda assim fiz planos pra nós dois sabendo que não era o que queríamos agora, mas quem sabe daqui a uns cinco anos? Mas se você não mudar, se continuar como é agora, e se eu mudar e inverter de jeito, gosto, sonhos e desejos? E eu mudo, cada dia um tanto como qualquer criança que cresce um pouquinho por dia, durante à noite. Eu cresço por dentro e vai cabendo um pouco mais de você, e se eu crescer tanto que caberá você e mais um? E se você não quiser esse mais um, vai ficar sobrando espaço em mim. Como quando a gente emagrece e as roupas ficam largas. Ajusta-se coração? Ajusta-se uma vida toda voltada para si mesmo, que cresceu e quis se dividir e não se pode multiplicar?

Como vou ajustar minha vida quando for hora de você partir e não voltar? Como me ajustar em outros braços que não os seus? Como me ver refletida em outros olhos que não os seus? Como contar rugas que não as suas? Como admirar seu rosto tão lindo, limpo, que de tanto chorar agora só sorri? Como ajustar meu coração antes tão pequeno, a um amor menor que o seu? Eu só queria você aqui pra me fazer sentir teu cheiro, teu toque, teu olhar em mim, e me fazer esquecer tudo que não tenho como controlar. Vai ver tudo isso é medo de te querer cada vez mais. De me perder, de te aceitar. De aceitar essa coisa clichê da qual eu sempre duvidei, um amor pra chamar de meu. Porque a inocência que eu perdi, achei no teu sorriso.


"E eu termino mais um dia procurando o que perdi
Procurando a liberdade que essa algema me tirou
Procuro, vou pra longe, tento me afastar
Mas o tempo me acompanha, sarcástico sorriso
É estranho, mas a ausência é sempre tão presente,
As palavras não se encaixam, Mas parecem coerentes"
Esquizofrenia - Square

Meu coração vai se entregar à tempestade (Marcelo Camelo)

"... Eu me desnudo emocionalmente quando confesso minha carência – que estarei perdido sem você, que não sou necessariamente a pessoa independente que tentei aparentar ... Quando choro e lhe conto coisas que, confio, serão mantidas em segredo, coisas que me levarão à destruição, caso terceiros tomem conhecimento delas, quando vou a festas e não me entrego ao jogo da sedução porque reconheço que só você me interessa, estou me privando de uma ilusão há muito acalentada de invulnerabilidade. ...  Aprendi a aceitar o enorme risco de que, embora eu não seja uma pessoa atraente e confiante, embora você tenha a seu dispor um catálogo vasto de meus medos e fobias, você pode, mesmo assim, me amar..."
O movimento romântico" - Alain de Botton


Eu não consigo mais esconder, sequer tenho certeza de que um dia só, por alguns segundos eu consegui esconder de ti como sou, quem sou. Esse poço de dor, medo, esses amores tanto sufocados, esses gritos que nunca dei. Você chega à noite, depois de dar sua aula, me encontra no sofá com algum livro na mão, me beija apressadamente, e enquanto você vai tomar banho, relaxar eu preparo algo pra gente comer, um vinho tinto pra tomar, e eu espero que você saia, que me abrace ainda molhado, só pra me irritar.

Eu espero tanto de ti e mesmo assim é tão pouco. Eu espero aquele sorriso discreto, aquele olhar discreto, a voz alegre, o rosto apoiado na mesa, me vendo passar. Eu espero de ti, tudo que já tive e nada mais. Não precisa aparacer com flores, recitar poemas, nem precisa perguntar como foi meu dia. Eu só preciso que você exista pra eu me apaixonar por você de novo e mais um pouco a cada dia. Eu só preciso saber que mesmo quando não estamos juntos, aquela música faz com que lembre de mim, aquele verso que você explica aos seus alunos te faz lembrar de mim, eu só preciso saber que você se lembra de mim, pra eu nunca esquecer que sou sua.

Porque a cada dia estou me revelando mais, e você me abraça em crises de choro e você me beija como a maneira mais eficiente de me fazer calar a boca quando eu desesperada começo a falar coisas sem sentido pra você, e você me toma nos teus braços, alisa meus cabelos, segura minhas mãos e me pede calma. E nessa posição sinto melhor seu cheiro, um aroma calmante natural, que amolece meu corpo, e aí eu deito e em silêncio você seca minhas lágrimas. Eu sou assim, não foge, eu quase chego a sussurrar.

Me segura firme em tua vida, me acomoda em teu peito, eu sou essa coisa cheia de medo, angústias, perguntas, dores, mágoas. Mas eu também sou cheia de amor, paciência, me ajuda a ser mais como você, tão seguro, tão experiente, tão calmo, paciente e mesmo assim cheio de amor. Cuida de mim, como sua possibilidade de abrigo, me abriga quando tudo em mim é tempestade. E eu não me escondo mais, eu transbordo de mim. Me deixa desaguar em ti.

Luana Gabriela
06/04/2011

"Pra nós, todo o amor do mundo
Pra eles, o outro lado
Eu digo mal me quer
Ninguém escapa o peso de viver assim
Ser assim, eu não
Prefiro assim com você
Juntinho, sem caber de imaginar
Até o fim raiar"

Morena- Los Hermanos

Sinto falta dele, até quando ele está aqui

Sinto falta dele com violão tão antigo na mão, com as cordas velhas, cantando qualquer música que ele mesmo tenha feito e que eu sou a primeira a ouvir. Sinto falta, embora ele esteja aqui, do meu lado agora. Sentado em frente à tv, assistindo ao telejornal. O violão empoeirado no quarto dele, junto com tanta coisa daquela época que não volta mais. Quando a gente escapava da aula, ia para o parque à noite e ficava lá, filosofando sobre amor, pessoas, a gente, e cantando.

Só as estrelas eram testemunhas daqueles momentos. Hoje todo mundo sabe e todo mundo vê que a gente está junto, embora a maioria não entenda nem como, nem quando, nem onde, e criem teorias sobre o porquê. Eu, que tenho escritos leads e leads*, não sei como iniciar o parágrafo dessa narrativa. Que de tão pura deveria começa com Era uma vez. Como todo mundo eu fui deixando algumas palavras para trás, ele foi deixando algumas atitudes, e assim fomos nos encaixando, entrando no mesmo ritmo, eu desacelerando e ele acelerando um pouquinho, pra não me deixar ir muito além, sozinha. Agora a gente toca a mesma sinfonia: a do silêncio. Eu silencio e ele entende. O inverso de tudo que aconteceu pra nós dois, todos os relacionamentos que eram só barulho, gritos, choros e risos maldosos, um silêncio cúmplice. É no silêncio que a gente diz o que tem medo, eu de escrever, ele de cantar. Ele canta outras histórias, eu escrevo outras narrativas, e nunca somos os personagens. Há ficção demais nessa realidade.

Eu não pronuncio a palavra amor, ele não canta que é pra sempre. A gente se gosta, a gente tem um compromisso, o compromisso de ser até quando se é, e quando não se for mais, deixar de ser da maneira mais digna: sendo. Complexo? Ele entende. Ele me entende, acima de tudo. Conhece meus traumas, respeita meus medos, mas não rege nosso relacionamento por eles. Cada dia é como vencer um medo: de altura, de aranha, da madrugada, do futuro, de amar, de ser amada, de ser feliz.

Eu sinto falta de como a gente era, quem eu era, quem ele era, quem éramos juntos. Mas adoro chegar em casa e às vezes ter o café pronto. Adoro ir pra casa dele na sexta, fazer uma janta pra nós dois. Adoro descansar, ler, e não fazer nada com ele. O violão está quieto, mas nosso coração bate e é pleno carnaval, a gente que só ouvia rock, dorme ouvindo samba da velha guarda, a gente mudou muito, mas mudou junto.

Eu não sei se ele ainda sabe tocar as mesmas músicas, mas continua me tocando como nunca. Dedilhando meus cabelos, ele consegue tirar de mim a melodia mais doce. O silêncio mais poético. Por vezes eu o olho da cozinha, sentado no sofá assistindo algo, e penso: Até quando eu vou conseguir ser feliz, sem me sentir culpada? E aí ele percebe que eu estou olhando e me sorri, e percebo que essa felicidade também é merecimento, nós dois já choramos muito. E nesse instante o que eu mais quero é fazê-lo feliz, exatamente como ele me faz. E isso não precisa de nome, só precisa da gente, e isso a gente já tem.

Luana Gabriela
Março 2011


*lead – técnica jornalística de contar no primeiro parágrafo as informações mais importantes. Quem, quando, onde, como, por que.

Professor

Você não sabe, mas naquele momento era o homem mais amado do planeta, o mais desejado. Naquele instante em que nossos olhos se cruzaram e se perderam uns nos outros, e que se beijaram mesmo sem se tocarem, eu te amei. Te amei como uma possibilidade de amadurecimento, você mais velho deve ter muito pra me ensinar. Te amei como uma possibilidade de abrigo, de colo, de companhia para meus domingos de leitura. Você, que já deve ter lido tanto, e que leciona minha matária favorita, poderia ser meu professor particular de como escrever (viver) um romance.

Eu que nunca senti seu cheiro, fico sonhando com o tempo da gente junto, na sua casa, lendo qualquer clássico da literatura nacional e declamando versos de Quintana, um para o outro. Eu quero que você interprete o texto que os meus olhos escreveram naquele instante. Eu quero que você leia as entrelinhas daquele momento. Eu quero que você avalie meu desempenho, eu quero que você chame minha mãe pra conversar, pra reclamar de mim, da minha falta de concentração, e do meu português ruim e agora eu me lembrei de Cássia fazendo referência ao Roberto: "Não vem dizer pra mim dos erros do meu português ruim, não que eu não saiba não". Espero que entenda minha concentração some quando o vento bate em teus cabelos longos e loiros, deixando tuas costeletas tão a mostra.

Eu quero cuidar das tuas camisetas cinzas, das tuas calças jeans desbotadas e do seu all star antigo. Discutir contigo qual o melhor cd de metal dos anos 80, qual o melhor dia para ir naquele bar, e descordar de você quando achar que a gente não pode dar certo. Me ensina. E eu te provo. Somos sujeitos complementares de um mesmo verbo, amar.

Luana Gabriela
22/03/2011

O mesmo


E depois de três anos as pessoas ainda me perguntam de você. Eu não sei o que dizer. Não há lugares-comuns como está casado, foi transferido para São Paulo, é pai. Você ainda é o mesmo. Aquele mesmo por quem me apaixonava todos os dias um pouco, é você que ainda some no fim de semana, aparece no domingo à noite ao meu lado, pra me dar a mão. Ainda é você. Embora eu hoje te peça: Não me toque. Você acha que é repulsa. Não é.

Meu pedido é uma súplica, não me toque por fora se não for capaz de me tocar por dentro novamente. Não acaricie minha pele, se não for também acariciar meus ouvidos, não me empreste seu casaco se não for pra aquecer esse frio coração que você deixou ao partir, numa tarde qualquer de 2008. Não me toque, se não for pra dedilhar meus dedos com teus dedos, como o Chico Buarque dedilhando seu violão: Não me toque se não for pra me tocar chicobuarqueando, minha pele, meu sorriso, meu caminhar.

Não me toque, se for para repetir a mesma canção dos tempos passados, quero novas canções. Não me toque se for pra arrepiar os pelos do braço, mas deixar por dentro tudo intacto. Não me toque, se não for com as mãos e com o coração quente. Não me toque se não estiver disposto a gravar minha letra com tua melodia. Não me toque se não gravemente agudo, um amor sustenido, um sofrimento bemol, não me toque se não for no meu tom. Não pegue em minha mãe, se não for pra me pegar inteira e nunca mais me devolver a mim mesma. Meu pedido é uma súplica: me toque além da pele, me toque visceralmente.


Luana Gabriela

Canta comigo

Ele me pediu perdão. Como eu nunca achei que fosse acontecer. A pessoa mais orgulhosa que eu conheço me abriu suas fraquezas, seu orgulho ferido, me pediu perdão. Eu em prantos compreendendo a exata dimensão daquele momento: Ele se permitindo ser o que é na minha frente, o que não mostra pra mais ninguém.

Eu cheia de vergonha por ver um homem chorando, se explicando, se desculpando como nunca havia visto. Eu cheia de dedos pra falar as verdades, eu querendo abraçar e chorar com ele aquela dor de um fracasso que eu conheço bem. Eu, quieta só ouvindo. E pensando em como eu pude exigir dele algo nesse momento e quase me desculpando também.

Alguns podem pensar que agora tenho ele em minhas mãos, mas o que me agrada mesmo é saber que tenho ele em meus braços, com a cabeça sobre meu ombro, ou sobre meu colo.Ele, o homem mais orgulhoso que conheço, se permitindo ser um garoto magoado porque nunca é escolhido para compor o time de futebol na escola. O garoto que eu escolhi pra ser quem cuidaria de mim, admitindo que agora também precisa dos meus cuidados. E eu ali esquentando a água pra um chá, cobrindo os pés, pedindo a Deus por ele, enquanto ele ronca no meu sofá. Eu o beijo na testa como ele tantas vezes já fez, eu tenho medo de deixá-lo só, eu deito na sala também, eu diminuo o volume da tv, eu desligo os telefones, eu só quero que ele acorde e sinta que tudo pode ser melhor se eu estiver lá.

Eu só queria que ele soubesse que não o vejo menos homem depois disso, mas que o vejo como o homem real, que ele é. E me sinto menos fracassada, e mais possível pra ele. E volto a sonhar com nossa geladeira retro, num apartamento bem pequeno daqui ou de outra capital do Sul. O homem que vai chorar comigo. O homem que canta comigo Livin' On a prayer.


Luana Gabriela 
Março 2011

Você vem


Você vem. Talvez com cabelos escuros, talvez não. Talvez com olhos claros, talvez não. Você vem. Se é de ônibus, carro, avião, ou se está tão perto que vem caminhando mesmo, não sei. O que importa é que você vem. Talvez venha para somar no meu mp algumas bandas que eu não conheço, talvez venha pra me fazer conhecer mais diretores de cinema, mais revistas em quadrinhos, outros bons técnicos de futebol.

Você vem. Como outros já vieram. A sua diferença, é que você não vai. Não vai virar as costas enquanto eu ainda estiver falando, não vai precisar de uma manual “como agradar-me”. Você vem e não vai precisar que eu te diga nada além de “sim”. Um amor pra concertar, um amor desconcertante. Você vem e eu não preciso procurar. Eu vivo. Eu caminho, eu sorrio, eu choro, eu vejo Woody Allen, eu leio Lispector, eu ouço Kings of Leon, eu cantarolo “a good love in on the way” e penso em você.

Você vem. E eu não vou pensar se é certo ou não te querer, eu vou querer e ponto. Você vem e eu vou contigo, pro mercado, pro parque, pra sua casa, pra sair com seus amigos. Você vem. E eu vou fazer seu prato favorito, despertar teu sorriso mais bonito, te tocar dedilhadamente uma canção. Você vem, para me desdizer, para me contrariar, para deixar tua voz em meus ouvidos antes de dormir, para segurar minha mão, para reparar em meu esmalte, para criticar meu estresse, para elogiar aquele verso.

Ah, você vem. E eu já não espero grandes coisas, quero as pequenas mesmo. Quero o café da tarde numa quarta-feira, quero dormir no quarto enquanto você assiste ao jogo de domingo na sala, quero cantar no sábado pra te fazer dormir. Você vem e nada vai me tirar a certeza de que vem, e é pra ficar. E eu vou, vou acreditar em nós, de novo e pra sempre até que o pra sempre se esvai, e eu acredite na gente, só por hoje, hoje, hoje...

Luana Gabriela
01/02/2011


15 quase amores


Fernando, não foi meu primeiro amor, mas foi com ele que comecei a cometer loucuras. Quinta série, eu e uma amiga seguíamos até a casa dele, para eu descobrir onde ele morava e começar a deixar cartas de amor anônimas. Mesmo assim ele (seria um gênio, ou eu não sei (sabia) disfarçar sentimentos?) descobriu que era eu e em uma visita à fábrica das barrinhas de cereal Nutri, nos beijamos, uma relação ligth, que acabou ali, gostosa, nutritiva, pequena. Na sexta série meu amor foi outro. Mas antes desse, é preciso dizer: minhas paixões não sobreviviam à distância das férias, eu sempre arrumava outra paquera na praia, e em geral eles eram de longe, o mais marcante foi um corinthiano com nome de anjo que morava em São Caetano. Tenho a pulseira dele que ganhei na despedida, até hoje.

Mas meu primeiro amor “recíproco” (na sexta série), que eu só descobri 8 anos depois, foi Henrique. Já há meses sufocando meu sentimento, resisti a ele na festa de 15 anos de duas das minhas melhores amigas. Sucumbi à pele morena, aos olhos verdes, e aos dentes lindos e brancos durante uma tarde no colégio fazendo um trabalho. Nossos amigos nos trancaram na sala de artes, nosso primeiro beijo foi embaixo da mesa com metade da sala ouvindo e espiando atrás da porta. Foi nosso primeiro e último beijo. Embora ainda tenhamos protagonizados cenas épicas como eu brigando com uma outra guria por ciúme dele, ele passando em frente ao meu condomínio gritando meu nome e que me amava. Ele casou, teve um filho. Seis anos depois disso, me acha nos sites de relacionamento e me pergunta: Porque você não quis namorar comigo? Desabafei, que quem não quis foi ele e ainda mais ele tinha ficado com a loira nojenta que eu detestava. Ele me chamou pra ir no cinema, eu disse que sim, mas que ele levasse a mulher e filho. E ele nunca mais apareceu.

Eu já no ensino médio. Apaixonada por um jogador de basquete. Que só me valorizou dois anos depois e eu me arrependi imensamente de ter dado chance a ele. Foi por ele que eu não quis namorar Paulo. Amigo do meu irmão mais velho, que eu conheci na praia num dia de muita chuva e luzes apagadas. Passamos um mês convivendo na mesma casa, almoçando, tomando café da manhã e quase dormindo juntos. Não fosse pela separação dos quartos, meninas no quarto da frente, meninos no de trás. Eu lembro de todas as coisas que ele despertou em mim, que ninguém antes tinha despertado. Talvez tesão seja a palavra certa. Voltamos da praia e ele ia me buscar no colégio, me levou pra conhecer a avó dele, me dava presentes. Me pediu em namoro, eu disse não. Um mês depois apareceu Rafael, bem mais novo que eu. Meu novo vizinho, não me lembro bem como e porque ficamos juntos, mas ele também me pediu em namoro e eu disse não, ainda por causa do jogador de basquete. Que de verdade não valia a pinga de um real que eu tomei antes de ficar com ele numa festa. 

No último ano do colégio, André. Paixão incitada pela minha professora de português. Eu sempre dividia o livro com ele, recitava poemas, escrevia frases. Idas ao médico, ao cinema, à biblioteca. Vivíamos juntos, mas nada rolava. Até que comecei o cursinho e conheci Gustavo. Mais velho, com namorada, fumante. Cheiroso como nenhum outro homem era, sedutor como ninguém havia sido, foi com quem eu fiquei por mais tempo. Até que decidi colocar André contra a parede, ele fez uma exigência, eu não aceitei. Cansei de Rafael e de André, fiquei sozinha.

Viva a faculdade. Muita gente nova pra conhecer. A grata surpresa: Lucas. O riso mais contagiante e o pacto de não pegação. Melhores amigos e só. Me apaixonei é óbvio e claro, ele só nos deu uma chance anos depois. Mas dele eu nunca me arrependi. O beijo mais quente, e ter cuidado dele o dia que ele não tava bem, como ele já cuidou de mim tantas vezes. O respeito, o carinho, e o silêncio. Não tocamos nunca mais no assunto: até hoje melhores amigos. Meus amores nunca souberam dele, os dele nunca souberam de mim. Ainda penso nele e muito, como o meu pedaço de paraíso aqui. A gente se entende, a gente sente a dor, a gente ri muito junto. A gente é a gente e não há como ser isso que a gente é sem ele.

Pra esquecer Lucas me aproximei de um homônimo, também baixista e roqueiro, embora não indie, mais pro lado do metal. Tenho o cheiro dele guardado na memória ainda hoje. Pra esquecer Lucas (2), me aproximei de outro. Bem diferente. Bruno, um amigo, carinhoso, atencioso, não demorou três meses estávamos namorando. Não demorou 15 dias terminamos. Não era bem o que a gente pensava.

Anos se passaram até que eu me abrisse novamente. E eu me apaixonei a primeira vista. Um baterista. Sentado, tocando o instrumento, um boné, um sorriso. E eu sofrendo um ano, porque ele estava apenas visitando a família, não morava aqui. Ele veio morar aqui, logo quando eu conheci outro baixista, perfeito, segundo meus sonhos adolescentes. Moderno, roqueiro, músico, gostava das bobeiras que eu escrevo – escrevia-, só tinha um defeito: canalhice. Enrolar duas ao mesmo tempo. Assumi minha parcela de culpa, o perdoei pela parcela de culpa dele. E me abri novamente. Entre o amor à primeira vista, e esse amor musical, havia um terceiro elemento: ele, o oposto de tudo que eu era. Ele, palmeirense, petista, metaleiro, desligado da moda, atleticano, era tesão também. Mas não passava pela minha cabeça me envolver com ele. Dois anos e ele reaparece. A gente sai, e se apaixona. A gente começa a namorar, a gente briga, discute, termina. A gente não volta. Foi mais um quase amor, aqueles que o Cazuza cantou – quando acaba a gente pensa que ele nunca existiu. Ninguém dessa história realmente existiu. Eu inventei pra me distrair.

Luana Gabriela
23/02/2011

Que seja real, doce e eterno



Que seja tudo que ainda não veio, não foi. Embora as cenas se repitam, mãos dadas, beijos escondidos, namoro escondido – é muito cedo pra alguém saber – que seja tudo que os outros não foram. Real que eu possa tocar, que seja concreto como o substantivo Deus, e que seja eterno. Que os dias passem lentos, os anos rápidos, que nós dois não passemos nunca.

Que seja doce, não como o chocolate da páscoa, mas como aquela última bala esquecida no bolso. Doce, surpreendente e raro. Não importa como, importa que seja. Abraços doces e macios como marshmallows. Beijos doces e viciantes como café com creme.

Que seja eterno, como hoje já quase nada é. Somos. Seremos juntos, a eternidade nos segundos de abrigo, a eternidade revelada no nosso amor fazendo eco, preenchendo esse vazio da humanidade, a eternidade dentro e fora da nossa casa. Que seja real, doce e eterno como só Deus, que é amor, consegue ser.


Luana Gabriela
20/02/2011

Quando a maturidade bateu à porta, eu pulei a janela

Me desculpe. Não foi uma atitude madura ter saído de casa e deixado apenas um post-it rosa, com “Até Logo” escrito, e mais nenhuma explicação. Estive na casa de uma amiga. Não se preocupe não era uma das amigas baladeiras, que me levariam você bem sabe onde pra tentar te esquecer. Fui na casa de uma das amigas casadas e com filho. Você pode pensar que ela me diria: Não se assuste, no início é assim, mas seja mulher e volte para sua casa, para sua nova família. Na verdade, acho que eu inconscientemente, ou nem tanto, também estava esperando que ela dissesse isso. Mas ela não disse.

Eu saí de casa sem levar roupa alguma, apenas a bolsa do dia a dia, com o mínimo de maquiagem, o livro que eu estava lendo, e um cartão de crédito. Levei o celular, embora eu o tenha deixado desligado todos estes dias. Não sei nem se voltarei a ligá-lo. Não quero saber quantos contatos profissionais deixei de fazer, quem deixei de socorrer para uma ida à farmácia, ou uma dúvida na grafia de palavras, nem quero saber quantas vezes você me ligou, se deixou recado, ou pior, se não me ligou. Eu saí, deixando tudo que era meu, mas me levei embora. Aquele seu casaco, eu peguei também. Era ele que você usava quando a gente brigou pela primeira vez. Você todo nervoso, levantando o zíper até cobrir todo seu pescoço, exatamente do jeito que eu adoro. Fazendo com que minha raiva se esvaísse em um sorriso de segundas intenções.

Ela me deixou ficar lá, integrando aquela família. Eu brincava com o filho dela, eu falava sobre futebol e empresariado com o marido, eu falava sobre dietas e produtos de beleza com ela. Eu tinha momentos sozinha também, ficava sentada no sofá horas lendo meu livro, inventava receitas, cuidava da casa. E eu não entendia porque isso era tão atordoante na nossa casa. Você o dia todo fora, eu em casa, recolhendo a roupa antes da chuva, tirando o pó, escolhendo que música tocar enquanto eu recolho o lixo, enquanto faço as unhas, enquanto tomo banho e faço uma omelete pro jantar. Tudo que eu fazia antes de você, tudo que eu fazia com você, tudo que eu faço agora, depois de você. Embora o depois seja precipitado, eu disse Até Logo e não Adeus.

Jamais voltaria pra casa da minha mãe, que sempre foi a casa da minha mãe, nunca a minha casa. Eu deixei no nosso apartamento minha estante de livros, é a garantia de que eu vou voltar nem que seja pra buscá-los, e pra ouvir você gritar. Essa rotina é que cansa, não você. Se não fosse loucura minha eu te pediria pra gente mudar o jeito, mudar a casa, pintar as paredes, comprar uma geladeira antiga, nos desfazermos do sofá. Eu quero uma família, mas não tão igual às famílias que nos cercam. Afinal nós não somos iguais.

Eu vou voltar. Só não sei se é pra você, pra nossa casa, ou pra quem eu era antes de você. O pior é saber que ainda não estou pronta para te dizer nada disso. Meu telefone continua mudo. E meu silêncio ainda é um até logo. O seu é um “tudo bem” ou um “você que sabe”?

Luana Gabriela
14/02/2011

Gosto de ver você dormir


“O mundo anda tão complicado, que hoje eu quero fazer tudo por você”, cantava o trio em cima de um pequeno palco qualquer, num bar qualquer dessa cidade. Rodeada de amigos, com os papos mais divertidos e cabeça ao mesmo tempo, o refrão ecoava em minha mente, com a tua voz. Com tua voz de domingo de manhã, com teu hálito e hábito de beijo escova de dente. Essa foi a cena de quando eu disse: Gosto muito de você.

Foi pouco. Depois de tanto mimo, cuidado, carinho, você queria (merecia?) ouvir mesmo era um Eu te amo, bem espaçado para não confundir, para você não imaginar que era sonho. É pouco? Mas é tudo e é completamente. Eu gosto tanto de você que não há em mim espaço para gostar de outros olhos, de outros beijos, de outros dedos, de outra voz, de outros acordes, de outro. Eu gosto de você e é tanto que suporto teus rock’s antigos, teu cabelo mais comprido que o meu, é tanto que aguento você me oferecendo chá, sabendo da minha paixão por café. Gosto de você e é tanto que não importo de você vestir camisetas tão velhas e desbotadas e nem com seu all star tão surrado, quanto seu coração.

Gosto. E é tanto que quero aprender a cozinhar teu prato favorito de surpresa, e preparar num domingo qualquer. Gosto tanto que acompanho as notícias de teu time, mesmo sendo um grande rival do meu. Gosto. Gosto desse perfume, mesmo sendo igual ao do ex, em ti é diferente. Gosto da sua maneira bruta de atender ao telefone, e do modo doce de não querer desligar. Eu gosto. Gosto de teu sotaque diferente, da tua pinta no braço, da tatuagem escondida nas costas, gosto mesmo. Pode ser pouco. Mas pra mim já é tanto.

Você sabe minhas histórias, aquela frase dita precocemente, virou uma grande mentira. Não me diga eu te peço, e às vezes é mesmo para não me sentir na obrigação de responder Eu também, como você supôs. Eu nunca te pedi pra ligar, me apresentar aos seus pais, eu nunca exigi nada, apenas peço que não diga. A palavra dita não volta. Ela chega ao coração cria raízes e pra arrancar, dói muito. Meu coração é de novo um solo fértil, não diga nada.

Me basta dividir os dias, completar as frases, cantar os mesmos refrões, me basta amar e não dizer. Você cruza a porta, cumprimenta todo mundo, chega minha vez, sua voz rouca, sussurra: “Quero ouvir uma canção de amor /Que fale da minha situação/De quem deixou a segurança de seu mundo/Por amor. Isso é tudo. O silêncio que vem depois é a frase que tanto calamos. Gosto muito disso.

Luana Gabriela
13/02/2011  

De pernas para o ar

A ampla reverberação do "é impossível ser feliz sozinho", faz com que mulheres bem sucedidas, bonitas, inteligentes, cultas, divertidas exponham-se a ter menos do que merecem só para não ficar sem nada. Toda mulher sonha mesmo em ter filhos, marido, casa para cuidar? (Não sou contra, tenho às vezes essas ideias também), mas precisamos generalizar? Para ser boa no trabalho, tem de se negligenciar a família? Para cuidar bem da família é preciso deixar de trabalhar? E para ter um homem ao seu lado - mesmo que só para não estar só - é necessário diminuir-se? 

Leia texto completo com base na análise do filme De pernas para o ar no blog: Não quero Falar disso!   (O blog voltou, mas com outra abordagem, linguagem e objetivo.)

Depois


Me irrita sua mania de desligar esse celular. Você gritou. E começou então uma longa e filosófica discussão sobre como sou uma pessoa antissocial, imatura, que não sabe dizer não. Você está certo. Eu acrescentaria ainda o fato de ser apaixonada por solidão e ter um amor impossível com uma companhia imaginária de um amor que não virá. Você não falou disso nessa nossa discussão, mas não me poupou nas seguintes.

Nunca entendi esses casais que discutem diariamente e fazem as pazes diariamente, e hoje não me entendo. Todos os dias me pergunto como, porque, onde, pra quê? Aguento e suporto isso tudo, se analisando bem nada vale a paz que você me tirava. Na verdade, também nada vale a paz que você me dava.

Assistindo a um filme, você faz um comentário, eu discordo. De repente. Eu apoiando minha cabeça em teu colo, você fazendo pequenos nós em meus cabelos... e um comentário tudo muda. Levanto a cabeça enfurecida, não posso nem expor minhas ideias. Eu aceito as suas. Aceito tudo que nos é diferente, e tudo nos difere, e talvez fosse essa diferença que nos aproximasse.

Com o tempo veio o cansaço, físico, emocional. Cada vez que brigávamos eu não comia, eu não dormia até que fizéssemos as pazes e às vezes demorava mais de um dia. Até que eu cansada, fui deixando de me importar em dar minha opinião, de expor meu querer, deixei de dizer que sentia sua falta, ouso dizer que não sentia mais sua falta. 

Dias e dias sem se ver, sem motivos. Não foi a agenda de nós dois que nos afastou, foi a distância emocional que você me impôs. Não me tocam suas palavras bonitas, você disse. E elas eram o melhor de mim. Eu com você, não era eu. Era quem você gostaria que eu fosse, assim você foi quem eu quis por algum tempo. O tempo não acaba com o amor, o tempo destrói a paixão, a ilusão, a irracionalidade do início.

Com você eu descobri que o amor é o que vem depois. Depois de você. 

Luana Gabriela
2011

Please, don´t stop the rain (James Morrison)


Senta aqui, comigo. Olha pra mim, eu completamente de cara limpa, exatamente como aquele dia que a gente se beijou pela primeira vez. Eu estava tão de saco cheio daquele compromisso, que nem me arrumava mais. Era preguiça de tentar esconder meus defeitos. E foi quando você os viu que não resistiu. E quem sou eu para resistir a quem me quer apesar de como eu sou?

Fica aqui comigo, a tarde está pedindo por nós dois nesse sofá. E já não importa o que passa na TV, meus olhos fixos no seu, e isso é tudo. Fica aqui, lindo, em silêncio dizendo que me adora, com essa sua respiração ritmada, com essa alegria calada que me invade, me transborda. Faz com que eu não caiba mais em mim mesma, e tenha de me dividir contigo.

Olha só, o vidro da janela embaçado, a chuva lavando todo lugar. Fica aqui, a gente pega o violão, faz um café, descobre um pouco mais um do outro, e de nós dois juntos. Fala um pouco do tempo, da vida, do amor, sorri. Sorri como sempre fazemos juntos, como vai ser a vida inteira, eu em teus braços, me esquentando no teu moletom mais antigo, pra ficar com teu cheiro nos dedos, pra deixar você gravado em mim como uma tatuagem. Sorri, deixa teus olhos pequeninhos, isso sé tão lindo. Acho que foi aí que me apaixonei, no seu abraço, no seu sorriso largo com os olhos pequenos, no seu cheiro tão delicado que eu preciso ficar muito perto pra sentir. Foi por todo estes detalhes, que ninguém mais teve oportunidade de descobri.

Fica aqui, pra sempre. Assim, como estamos agora, tão entregues, inertes nessa atmosfera de carinho, amizade, alegria, me cerca de atenção, e eu vou pedir pra chuva não parar. Que já não importa o que dissemos há tanto tempo atrás, importa agora esse silêncio de cumplicidade, esse olhar castanho refletido no meu, você se vê em mim, eu em ti, meu espelho. Meu quase amor. Fica aqui, só por hoje. O amanhã também será hoje. Fica aqui, deixa-me ser seu abrigo até a chuva passar, e “Please, don´t stop de rain”, I pray, silenciosamente. 

Luana Gabriela
03/02/2011
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