[guarde um sonho bom pra mim]

Hoje eu não quero falar...
Hoje eu só queria ouvir.
Luana Gabriela
24/09/2009
Eu preciso ouvir, você não precisa falar...
Trilha:Por onde andei -Nando Reis
[ por onde andei enquanto você me procurava? /
será que eu sei?/ que você é mesmo tudo aquilo que me faltava?]

[ açúcar, afeto, carinho, versinhos ]

Agora dei para mascar chiclete com sabor melancia. Deveria esconder esse detalhe. Mas vejo o quanto escondo o romantismo debaixo da mordida. Sou açucarado. Meu beijo é diabético. Logo eu que passo uma imagem seca de bolacha de sal. (...) não acredito nesta história de acomodação no romance. Que de uma hora para outra cansamos. Não é cansaço, não é que paramos de seduzir porque conquistamos e que não precisamos mais arrebatar com surpresas. Não é que estamos seguros e não arriscamos mais. Não é o conforto ou o domínio territorial. Senão começaremos a acreditar que existe cupido. E cupido é o mais cafona dos anjos. Quem começa uma relação com cupido termina na fossa repetindo os erros ortográficos das canções sertanejas. Confio que há gente que não saiba namorar. Não sabe namorar, e pronto. Supõe que é instintivo, natural, que é beijar, abraçar e os oceanos transportam a espuma. Que basta amar e as relações funcionam. Há gente que jura que namorar é cumprir um expediente depois do expediente: jantar, conversar ... Há gente que não quer namorar, e sim uma amizade para dividir o que se é. Sem tensão. Sem cobrança. Sem nervosismo. Que tudo está definido e seguro para o final do ano, que não pode ser perdido no próximo minuto. Namoro é ambição. É um final de semana a cada dia. É uma delicadeza insuportável, antecipar os movimentos e agradar quando não se espera. Gentileza em cima de gentileza, infindável. Um cuidado para não magoar com aviso e pergunta, com aquela educação concedida a gestantes e idosos. Namorar requer uma atenção absoluta. E não reclame: amar pode ser para toda a vida quando oferecemos toda a nossa vida. Tem que se preparar, ceder, abrir espaço, oferecer, renunciar. A inquietação nasce da paciência. A criatividade nasce de uma porta fechada. Durante algum desentendimento, mobiliza-se a genealogia da imaginação para escandalizar de novo. Carro de som, helicóptero, arranjos suicidas pela janela. Não é permitido ficar quieto, parado, para conversar a respeito. A conversa demora. No namoro, não existe como ser egoísta. É pensar pelo outro, com o outro, como o outro. É ter uma lista de compra de mercado na ponta da língua, junto com o chiclete de melancia: qual a pasta de dente que ela usa, o xampu, o condicionador, o azeite, o leite que toma, o suco... Desconhecer a geladeira da namorada é passagem direta para o congelador. É entrar numa livraria e pensar no livro que ela vai gostar, é entrar numa loja e pensar um vaso que combinaria com sua sala, é entrar no cemitério e sonhar com um mausoléu para a família, sim, planejar a morte junto - nada mais romântico. É entrar em si mesmo e lustrar as memórias mais distantes para parecer orfão antes de sua chegada.
Fabrício Carpinejar

O exercício do desamor

O amor vem fácil. Ou pelo menos o que se acredita ser o amor. Se amar é um exercício, o desamar também. Eu sei amar, mas desamar é uma matéria, que apesar de eu ter experiência, ainda não sei lidar direito. Ele foi o primeiro, e até agora único, a quem eu decidi dar uma chance, e por mais pretensioso que isso pareça, não é bem assim. Se você permite, eu me corrijo. Foi ao lado dele que eu resolvi me dar uma chance. Nos gostávamos. Mas não deu certo, pelo menos não por muito tempo. Mas de qualquer forma aqueles foram os melhores e também piores dias da minha “vida amorosa”. Não que ele não se esforçasse em me agradar, e que eu também não fizesse o mesmo por ele. Mas havia algo de errado, ou não havia. Porque hoje eu vejo, faltou entrega, ficamos ambos muito cheios de "armaduras". Tentar amá-lo não foi fácil, mas pior foi desamá-lo. E permita-me a exaustiva repetição do termo, até então, possivelmente não existente em seu vocabulário. Se há algo que me faz sofrer é a prática do exercício do desamor. Amar é fácil. Enalteça as qualidades, diminua os defeitos, crie situações em sua mente e pronto, estará amando. – vamos fingir que isso é um processo racional – Mas desamar é dolorido, tanto para quem pratica quanto para quem será desamado. Dói porque é necessário desconstruir aquela pessoa até então perfeita, mas que você não quer mais amar (ignore os motivos que te levaram a querer isso). Apegue-se a um defeito, (aí está a dificuldade, a pessoa era perfeita pra você), torne-o grande. Pode ser a pouca idade, a imaturidade apesar da idade, o modo como ri, ou o modo como é querido por todos – o que antes era qualidade pode virar defeito. Mas essa não é a pior parte. Dói ainda mais você negar todo o carinho que queria dar aquela pessoa. Dói calar o elogio. Ignorar o olhar. Fechar o sorriso. Chorei por querer abraçá-lo e não querer ao mesmo tempo. Dói calar uma preocupação antes tão presente. “Porque será que ele está assim, tão quieto e distante?” “Será que resolveu o problema do trabalho?” “E a vó dele será que melhorou?”. Dói porque as minhas palavras não serão mais doces, serão rudes, breves e indiferentes. Estou exercitando o desamor. Ao agir assim eu estou pedindo: “Por Favor, me ignore. Não olhe para mim, não fale comigo. Eu preciso parar de te amar”. Mas parece que a incompreensão faz o efeito ao contrário. “O que está acontecendo? O que eu te fiz. Eu não suporto ver você agir assim”. Obrigando-me a ser ainda mais rude, e a magoá-lo além do que mesma suportaria. Pedi que ele me deixasse em paz, que a presença dele me incomodava. Foi a pior coisa que eu poderia ter feito, e justo para ele que tanto quis me fazer feliz. Ele cantava: “Eu vou tentar fazer você feliz, nem que seja pela última vez”. Nunca pensei que poderia fazer alguém triste como eu o fiz. E pior foi perceber que nada disso mudou o que ele sentia. Ele respeitou meus pedidos. Mas não resistia a me presentear no aniversário, ou simplesmente quando encontrava algo que o fazia lembrar de mim. Ele teve outras nesse período de dois anos, que tudo aconteceu, e hoje está bem com sua nova namorada. Estou realmente feliz por ele. Com o tempo, eu fui me reaproximando. “Fico feliz que tudo esteja voltando ao normal”, ele me disse. E continuou: “Senti muita falta da sua amizade nesse período, precisei muito de você”. E ali estava eu, no papel da amiga compreensiva novamente. Hoje tomo todo o cuidado do mundo pra não magoar quem eu gosto, não quero cometer aqueles mesmos erros. Dessa vez eu quero fazer tudo certo. A começar pela “escolha” da pessoa. E assim não mais ter de desamar.
Luana Gabriela 21/09/2009
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