Do mesmo

Eu queria te escrever. Embora não saiba exatamente o quê. Quem sabe te contar que não tenho comido, mas que o café já acabou. Que não tenho sentido muito aquelas borboletas do início, em compensação tuas palavras ainda ardem em meu peito, minha face. Não houve lágrimas, também não houve sorrisos. Não houve gritos, mas silêncios também machucam.

É que eu sou isso tudo que te disse desde o início, e você não acreditou. Queres que eu seja menos dramática, consequentemente serei menos poética. Te expliquei que poesia e dramaticidade fazem parte de um todo só: eu = sensibilidade. Tanto o humor, que você  aprecia, quanto a poesia que eu aprecio, nascem do exagero, dos excessos.

O amor também, nasce e morre dos excessos. Nasce do excesso da falta. E morre do mesmo mal.

Luana Gabriela
05/08/2010


Ai

Eu vou falar bem baixo, espero que ele não me ouça. Mas como ele me dói às vezes. E não é uma dor ruim, sofrida, é uma dor de felicidade extrema que eu achei que nunca iria viver. É uma dor que assusta de tão boa. É como a dor de fazer um piercing, uma tatuagem, só que você sente aquela dor, aquela alegria e aquele prazer o tempo todo. Você se sente mais bonito porque é uma dor boa de sentir. Me dói essa vontade de querê-lo para sempre, logo. Esse medo de fazer tudo errado e estragar o que poder ser certo pra sempre. Esse medo de achar que o certo é o errado e estragar nosso futuro. Que medo eu sinto de que isso passe e a gente nem perceba.

Eu me assusto com esse sentir todo que é tão bonito e que vem de mim, que não sou nada bonita por dentro. Me assusta o modo como quero cuidar dele, mesmo que seja eu quem precisa de cuidados. Ai que medo eu sinto de perdê-lo, de me perder de mim, mas afinal quem sou eu de verdade? Aquela cinza antes dele ou essa toda colorida depois dele? Me diz, alguém, quem eu sou afinal? Que felicidade e paz são essas que me invadem mesmo nos dias em que tudo parece dar errado, e mesmo diante do silêncio dele escancarado, a lembrança do sorriso e do tempo ao lado dele que passa tão rápido, me acalmam o coração: Nessas horas lembre-se que eu te amo, foi o que ele me recomendou. Remédio. Cura. Exceção. Esse amor dosado, que eu finjo ter escolhido, esse amor que é de verdade, que não é inventado, que me reinventa, que é minha verdade mais contraditória, que é a dor que mais me faz feliz. Esse amor que eu sinto que é a coisa que eu mais gosto em mim. Ai esse amor que me tira as palavras, que me enche de silêncios doces, que me encanta e que me deixa encantada. Ai esse amor, ai de mim. Ai que dor boa de sentir, o peito apertado o amor querendo sair... Ai, eu suspiro baixinho ...

Luana Gabriela
08/2010

Tempo

Com o tempo. Com o tempo vais perceber minhas manias nada bonitas de ignorar pessoas. Com o tempo vais entender essa carência toda que você diz ser excessiva. Com o tempo vais decorar a textura da minha pele, a temperatura do meu corpo, os meus dias de tpm. Com o tempo vou decorar o número do seu celular, do seu apartamento, do seu sapato. Com o tempo vais entender o meu vício pelo café, e pela tua voz. Com o tempo serás capaz de identificar pelo "Oi" ao telefone que sorriso abri ao te atender: sorriso feliz ou sorriso de saudade. Com o tempo vais perceber que o abraço da chegada é mais largo e rápido que o abraço da partida que é bem mais apertado e longo. Com o tempo vais perceber que não tenho a mania de usar o "Eu te amo" como "tchau" a cada email ou telefonema, e nem por isso te amo menos. Na verdade vais perceber que é na distância que te amo mais, porque meu amor vive das nossas lembraças, de quatro anos atrás ou do último encontro. Você diz que ama mais, eu te respondo com um beijo. Eu te deixo amar mais porque sei que posso amar menos, mas amo exatamente com tudo que tenho.

Eu quero, com o tempo, modelar meu corpo ao teu abraço, o meu ouvido ao teu chamado, o meu coração ao amor que você me dá. Com o tempo vais sentir meu cheiro em tua blusa, exatamente como agora acontece comigo. Vais descobrir meu prato favorito, minha banda favorita, meus autores favoritos. Com o tempo vais descobrir qual de você eu prefiro em qual dia, o bobo, o racional, o apaixonado, o pai, o amigo, ou todos eles juntos.

Tens todo tempo do mundo. Para descobrir todas as pequenas coisas sobre mim. Para entender o meu ritual para escolher o esmalte, o sapato, o perfume. Para entender minha mania de comprar bolsas, perfumes, maquiagens. Para entender minha mania de comprar só os livros que já li. Para entender a minha falta de sonhos, os meus pequenos desejos, o meu sono que some de madrugada e volta logo ao amanhecer. Eu te dou o tempo que precisar, mas não quero que descubra tudo. É por isso que mudo, um pouquinho por você, um pouquinho com você. E eu tenho todo o tempo do mundo para descobrir algo a mais para amar em você e reconhecer suas pequenas mudanças, que nem você mesmo vê. São tão pequenas e tão importantes, que me descubro, como você disse estes dias, te amando 30 vezes mais que há um mês atrás.

Luana Gabriela

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