“Que medo alegre o de te esperar”. Clarice Lispector

Era uma garota sozinha. Uma garota com olhos fundos, castanhos, pele branquinha, cabelo cada mês de uma cor. Era um garoto sozinho. Ainda não se via a cor dos olhos nem da pele. Pode ser parecida com a dela, pode ser que não. Algo que cresce devagar, que nasce pra mudar uma vida, é uma nova vida a dois. Era um sonho que se realizava. Era o amor materializado. Era tudo de que precisava, alguém que precisasse dela.

Ela canta pra ele, músicas tão calmas quanto o lento piscar dos olhinhos dele. Lá dentro. Às vezes as músicas não têm letras, às vezes tem uma frase só: Eu te amo. Dizem que pode ouvir, embora pareça longe, estando tão perto. Vezenquando ele manda um recado, cutuca, faz ela sofrer um pouquinho, mas ela já aprendeu não existe mesmo amor sem dor. Era seu pequeno lar. Era ali que ela passaria a morar eternamente, e enquanto ele crescer, porque amor se alimentado só cresce, e ele era o amor em carne viva, ela diminuiria um pouco mais. Não há espaço para “eu” depois que ele passa a existir. O amor respira. O amor chora. O amor sangra. O amor tem vida e pode morrer. O amor é ele. Aquele pequeno pedaço de céu que é seu e de ninguém mais.

Ela sussurra algumas palavras de madrugada, como “te esperei tanto”, e acredita que ele possa ouvir, mesmo se estiver dormindo. Ele é lindo, mesmo quietinho. Apesar de ainda pequeno, a preenche tanto que não há mais vazios. O amor ocupou tudo. Ela transborda de amor. Anda por aí, sorrindo, o dia cinza e ela sorri. A chuva cai e ela sorri. "Vamos passar por tudo juntos, “estarei sempre aqui”, porque amor mesmo que longe, a gente ainda pode sentir. Passaremos noites acordados, dormiremos de dia, sonharemos nuvens de algodão, pelúcias de travesseiro, passearemos pelos parques, brincaremos nas balanças como os casais de filmes, dormiremos no sofá durante os filmes, acordaremos já cantando. E mesmo quando a gente brigar, ainda vai ser por amor. Jamais seremos sozinhos, eternamente teremos um ao outro. Eu já te amo tanto que tenho medo de você não chegar", adormeceu sonhando.


Luana Gabriela
17/12/2010

Minha alma congelando racional, apenas pra se sustentar. (Square)


É claro que preferia ser a outra. Aquela que ria, se apaixonava, sofria e continuava a acreditar no amor. Não deixei de acreditar que ele exista, deixei de acreditar que ele exista pra mim. Não sinta pena. Porque sofro bem menos do que sofria antes. Posso perceber choro muito menos agora. Quando sinto a falta dele (do amor e não de alguém específico) eu lembro que não é racional sentir falta do que não se teve. E então eu sorrio e penso que pode ser sempre assim. E existem os livros, os amigos, aquela pessoa pra quem você liga quando quer receber carinho, aquele ex-amor, atual amigo, que sempre te atende, que sempre tem palavras lindas pra dizer sobre você.

E aí quando você desliga o telefone e pensa: eu poderia me apaixonar por ele de novo, e a racionalidade chega e você lembra que não é ele quem você quer. Você quer alguém mais normal, com sonhos, planos, e não alguém que esteja apenas esperando a vida passar. Alguém que não tente controlar o que sente - você esqueceu que se tornou alguém assim. Você esqueceu que se tornou exatamente o que não queria ser. Alguém que não se preocupa com o sentimento dos outros, o importante é que não te magoem, que você não se machuque. Porque seu coração tem estrias. Enche de amor, esvazia. Enche, esvazia. Eu sei, é triste. Se não estivesse eu escrevendo este texto, eu ficaria triste e com dó de quem o escreveu. Mas com o tempo passa. 

Pode ser que a verdade esteja escondida bem fundo em mim, em um lugar onde ninguém ainda conseguiu chegar. Talvez seja um lugar escuro, protegido por espinhos, com obstáculos como cicatrizes. Tem que chegar delicadamente, sem que eu perceba, e quando eu me der conta já esteja instalado, que seja guardião dessa preciosidade chamada esperança no amor, esperança nas pessoas.  Que seja delicado pra procurar sem me machucar, acima de tudo. Já que me curar é impossível.

 Luana Gabriela
16/12/2010

Palavras amargas


“Um sentimento bom que há muito tempo eu não sentia por alguém”. Sentimentos bons também sinto e por muitas pessoas, inclusive por quem me fez sofrer, ainda sou capaz de desejar muitas felicidades e blá blá blá. Me desculpe você que achou que dizendo isso me faria bem. Querido, não fez. Na verdade gerou um misto de dó, com surpresa ruim. Porque eu detesto sentir que alguém gosta de mim e eu não gostar dessa pessoa também. E isso em qualquer nível. Seja em amizade, professor, aluno, só goste de mim se eu também gostar de você.

Aliás, você saberia isso se me conhecesse, mas você não me conhece. Sabe meu nome, conseguiu meu telefone - eu ainda nem sei como, e descobriu o bairro em que moro e daí? Você mesmo perguntou se sou comprometida, se trabalho, estudo... Você não teve nenhuma resposta, embora tenha dito que estava ansioso por qualquer resposta. Muito obrigada ilustre admirador conhecido, você fez com que eu decidisse ser o mais breve o possível em minhas palavras, fez com que eu optasse por terminar com qualquer possível chance de termos alguma coisa, em três linhas. As mais curtas e doloridas da minha vida. Porque dói. Eu já estive em seu lugar. Mas se ele tivesse me dito assim: Não dá, somos só amigos, eu teria ficado feliz. Mas, na verdade nem amigos somos. Você não me conhece. E não é possível que alguém me admire como você diz fazer, sem me conhecer. Admira o quê? O sorriso, as brincadeiras, que você assiste de longe? Nem meu cheiro você conhece. E o cheiro é que desperta sentimentos bons.

Por hora não quero sentimentos bons. Quero o que não tenho, e acredito que nunca tive, amor. Você não pode me dar isso. Prefiro ficar sozinha. Mas, me perdoe a frieza, obrigada pelo seu carinho. E pra você que eu nunca escrevi nada, fique com minhas palavras amargas. Abraços.


Luana Gabriela
15/10/2010
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