Me diz









Para ler ao som de Stand by me, Oasis.

Então, qual o problema? Eu fiquei aqui por anos esperando você me notar e ver que o que eu sentia ia além daquelas noites de você na sala e eu no seu quarto. Ia além da segurança que eu sentia quando ouvia sua voz, quando te encontrava com uma nova namorada que, aliás, eu nunca gostei.

Você tem de admitir que tentar nunca pareceu um erro.  Nesses meses em que dividimos o sofá e o quarto, e todo o resto que já era nosso, essa história ficou mais confusa do que esperávamos. Temos de lidar com o fracasso de algo que parecia inquebrável, eterno. Tem algum jeito de lidar com isso enquanto dividimos uma mesa de bar tentando entender como isso se tornou tão pesado?

Fica comigo, ainda tem uma garrafa daquele seu vinho favorito na geladeira, vamos acabar esse domingo com ele, pra ver se ele acaba com esse frio que nos faz tremer quando estamos frente a frente. Ninguém precisa saber que o fim chegou, só aperte minha mão embaixo da mesa, procure meus pés mais uma vez embaixo do edredom. Eu poderia prometer que te esquentaria se não estivesse tão frio. Mas eu prometo te acompanhar naquela do Oasis, que é a sua favorita.

Vamos deixar pra amanhã esse fim inevitável, por hoje você é meu melhor amigo me ouvindo sentir o fim de um amor. Você acha que eu posso fazer algo para mudar isso? Você acha que ele ainda me ama?

Quanto tempo dura um amor? Nesse tempo a gente pode incluir o tempo em que amou sozinho? Me diz e canta aquela sua nova pra mim. 


I miss you


Eu não estou mais aguentando sentir a sua falta

Um lar além da casa



Oi, amigo. Te escrevo com a certeza de que só escrever pode salvar. De que cada palavra é um momento em que volto à superfície para respirar. Estou cheia de palavras e me afundo. Vou te escrever e tentar ficar mais leve, boiar e ficar por cima dessa água toda que me submerge.

Temos uma vida inteira e não sabemos o que fazer com ela. Já dançamos, brincamos, cantamos, tocamos, amamos, gritamos, brigamos, e agora quê mais se pode fazer? Você sabe que digo isso com o peito ferido de quem perdeu-se no caminho que trilhou. Esse caminho de tentar de tudo quanto fosse possível para não caminhar sozinho. Levou-me onde? Nessa estrada em que tudo me irrita. E nada me acalma.

Não fique com dó, que eu não durmo. Tenha raiva, mas não tenha dó. Há quanto tempo desejando pequenos momentos a sós, vinho e pizza, sem ninguém para julgar? Horas de liberdade. Até que os monstros que nos assustam chegam, e mesmo que nos assustem ainda os amamos, é o jogo social. Amamos o que temos, tememos perdê-los, embora nos doam. Você, mais do que ninguém, consegue me compreender.

E não adianta me jogar na cara aquele convite pra morar contigo há dois anos que não aceitei. Sendo hoje eu também não aceitaria. É aí que tá. O problema não é a companhia, é que morar sozinha é um sonho, que já completa 12 anos. E veja só não tenho perspectiva alguma de alcançar isso nos próximos anos.

Não ri. Hoje cogitei a ideia de ainda estar aqui aos 30. Imagina só, continuar por mais seis anos a não me sentir em casa se não dentro do meu quarto rodeada de livros e boa música. Veja que não é que não amo, é que para continuar amando eu queria compreensão e respeito, parece que duas palavras que não se conhece por aqui.

Mas, não se preocupe, pretendo atinar-me em tarefas tantas que por aqui virei só para dormir. Talvez me vicie em algum relaxante muscular, tomei um ontem que me deixou tão zonza que em 10 minutos desmaiei. Viva o relaxante, o sono, o sonho, a cama, o edredom. Viva o que não acontece enquanto estamos dormindo!

Já que não vamos dividir a casa, divide comigo essa agonia, e a busca por uma solidão mais vazia. As pessoas não entendem e argumentam que me sentirei muito sozinha numa casa só minha, elas não entendem que já me sinto só, só que não estou. 
<< >>