Pra você

Agora há pouco eu acabei de ler o texto do Gregório pra Clarice. E aí eu lembrei de você. Do filme deles que assistimos juntos, porque você lembrou de mim, porque o filme lembrava o outro filme que amo e que você varreu a internet pra encontrar há muitos anos.
Eu quis escrever pra você, porque o Gregório me fez perceber que devemos valorizar o amor que demos e recebemos, e que só porque o amor acabou não quer dizer que não existiu: o amor acaba, já dizia o Antônio Prata.  Aí eu entendi o Felizes para sempre dos contos de fada. Você já percebeu que tem o ‘foram’ antes? O verbo no passado? Foram felizes para sempre. Só é possível a felicidade eterna no passado. Mantendo as lembranças boas. E como tenho lembranças boas da gente. Até mesmo aquelas brigas dramáticas são boas lembranças.
Com você eu podia dormir no cinema, eu podia ocupar seu quarto, eu podia te deixar sozinho na sala, podia mandar todos os textos pra você ler, podia curtir Muse, porque você também curtia, a gente tinha a nossa trilha, o nosso tempo, o nosso mundo. A gente ia à tarde pra faculdade pra aproveitar cada minuto. Você lia minhas matérias do jornal pras suas colegas, orgulhava-se de mim. Eu amava como você era gentil e educado com todos. Eu amava seu modo de ver o mundo. Eu amava o modo como você me amava. Eu amava o modo como tudo com a gente era diferente. Conhecer sua família tão rápido, ficar amiga da sua mãe, como sou até hoje. Eu amo o modo como você foi meu melhor ex-namorado. Amo o modo como me apresentou pro meu novo amor. Amo o modo como me ouvia falar dele, reclamar. Eu amava o modo como me entendia. Eu amava o modo como me surpreendia com cada presente incrível, mesmo depois do fim. Eu amo o modo como ficamos amigos depois do fim. Eu amo o modo como por anos passamos a relação a limpo, sempre agradecendo pelo que vivemos, reconhecendo nossos erros. Talvez, se eu parar pra pensar, eu ainda te ame. Naquele tempo infinito.
A gente desbravou esses sentimentos que todo mundo tem aflorado, mas a gente teve que procurar bastante. E aí a gente não conseguiu lidar com tudo aquilo. E acabou. O amor acabou depois da nossa relação, mas isso é normal. Eu acho.
Eu sei que você lê e assiste o Gregório. Eu sei que você ouve a Clarice.

É isso, eu só queria dizer que nós dois fomos felizes para sempre e que eu acabei de descobrir. 

1,2,3

Estou pronta pra morar em você. Pra te deixar morar em mim. Nossas olheiras denunciam: não queremos dormir e perder um segundo do outro. Medimos o tempo em estarmos ou não juntos. O tempo é clichê e passa rápido quando estamos juntos tão devagar quando separados. A gente conversa tanto e eu ainda tenho tanto pra descobrir de você. 

A gente é igual no restaurante chique ou no meio-fio do posto depois do restaurante chique.  A gente ri, fala sobre as notícias da semana. Discute o amor. Você repara que há mais tatuagens em mim que da última vez. É mais que reparar que eu também mudei o cabelo. É mais que lembrar que da última vez ainda tínhamos relacionamentos e que por isso fomos tão cuidadosos em não alimentar nada. Mas a vida fez nossos caminhos se cruzarem de novo. Aqui em estamos. 

Esperando o próximo passo. Pra acreditar de novo. Talvez pela última vez. Uma. Duas. Eternamente.

Tempo

Aqui não é o vinho falando. É a percepção de que o tempo passou. Você costumava ser aquele pra quem eu corria na tempestade, o que me despertava o riso, que me era um porto seguro, o eterno que nunca teve um início. Quase dois anos se passaram desde minhas últimas palavras nada doces, mas extremamente sinceras pra você. Quase dois anos passaram desde sua última frase, a tentativa de me fazer voltar atrás. 

Eu nunca voltei. Você deveria saber. Quantos relacionamentos você me viu acabar ou viu terminarem comigo e nunca houve volta? Espero ter feito você perceber que não é tão diferente assim. Cinco anos de pseudo companheirismo. Eu sempre soube que a gente ia acabar assim. Eu te indiquei o princípio do fim e você não me ouviu. Você nunca me ouviu. 

Mas agora não sou eu falando. É o tempo. São nossos amigos em comum já acostumados a não falar teu nome pra mim e nem de mim pra você. É minha vida completamente diferente desde que você se foi. São as doenças que eu descobri e trato e você sempre achou que eram frescuras. É o apartamento que eu comprei e você nunca achou que eu conseguiria. A CNH. O carro. Os congressos. Os voos. É tanta coisa que eu receio não há mais nada em mim daquela que te conheceu. 

Não há a inocência de acreditar em alma gêmea. Nem em um único amor em toda vida. Não há os sonhos de casamento, filhos. Todos nossos planos não significam mesmo nada pra mim agora. E não há tristeza nisso. Há um senso de realidade que não me perturba, pelo contrário, me liberta. Desde que te disse pra nunca mais me procurar, eu vim me encontrando pelo caminho que você não queria que eu trilhasse. Há escuridão, mas eu tenho uma luz interna que não me deixa temer. 

Dois anos sem você e eu terei o resto da vida pra me conhecer, me satisfazer, pra ser. O tempo passou e só hoje me dei conta.Um amigo me lembrou seu aniversário no próximo mês. E eu nem preciso me desculpar por esquecer. 


>>