Precisamos falar sobre nós

Hey, tá aqui. Tá aqui o livro que você me deu de aniversário. Tá aqui o cd do Smiths que você me deu junto com o dvd raríssimo daquele filme irlandês que a gente ama. Tá aqui impressa e exposta em dois porta-retratos a foto do duplo do Smiths que a gente tentou imitar. Você é muito mais lindo que o cara da capa (e ainda bem não tem nem luzes no cabelo nem olhos claros), meu moreno. 

É eu sei, não gosto de pronomes possessivos. Nada nos pertence. Pela minha fé nem mesmo nós pertencemos a nós mesmos. Mas permita-me a contradição. Escrevo porque precisamos falar de nós. Na realidade, acho que eu, eu preciso falar de nós. Não vale a hora na terapia e a mesa do bar com as amigas. Eu preciso falar de nós pro mundo. Meu mundo e do modo mais concreto pra mim: uma tela, umas teclas, e tudo que está aqui sai. 

Esconder que escrevo não foi proposital. Eu estava me escondendo das palavras mesmo, não de você. Trabalhar com elas, me afastou. Você não vai entender. É que o que hoje você lê, já foi meu jeito de dizer coisas que eu jamais diria. Eu simplesmente não vou te dizer que eu escrevi. Você vai ler e talvez nunca me diga que leu. Esses somos nós. 

Eu preciso falar de nós. E usar o nós, me dá um nó no peito. Um medo imenso de me enlaçar e me prender, me contorcer pra não me machucar. Mas é que eu cansei da pose de gray-romântica pro mundo. Hey, boy. A gente se olhou. A gente se olha. E por medo do nós eu usei o "a gente". Desculpa. Nós nos olhamos. Não só naquela noite. Não só na hora de indicar o aqui e o ali, "tô quase lá". Nós nos olhamos sentados no sofá. Entre as páginas que viramos do livro. Nós nos olhamos por cima das telas. Nós vamos trocar presentes no Natal. Nós já somos nós pros outros. 

Você não sabe, mas andei passando meu passado a limpo. Eu não poderia ser nós, se ainda estava com ele - e a raiva dele - aqui dentro. Agora tem mais espaço pra você. Tem espaço na gaveta. Tem espaço pra escova de dentes. Tem espaço depois de 12 aulas em pé. Tem espaço pro café, pra cerveja, pro bar. Tem espaço pra eu me explicar, inspirar, me derrabar. Tem espaço pra você ficar. 

Você não precisa mais pedir licença. 

Pouco importa agora o que virá se tudo que já somos não poderia ser outros se não nós. 



How can they see the Love in our eyes
And still they don't believe us?
And after all this time
(they don't want to believe us)
And if they don't believe us now
Will they ever believe us?Como podem ver o Amor em nossos olhosE ainda não acreditar em nós?E depois de todo esse tempoEles não querem acreditar em nósE se não acreditam agoraAlgum dia acreditarão?The Smiths  -  the boy with the thorn in his side 

Enquanto ele dorme

Ele está deitado. Dorme. Isso não me incomoda. Dormir depois do sexo é um clichê saudável. Eu gostaria de estar dormindo também, mas alguma coisa em tudo que houve hoje me lembrou você. Ele dorme exibindo essas tatuagens que eu tanto gosto, com o cabelo longo extremamente bagunçado, e eu me sinto culpada por estar te escrevendo. Mas eu preciso. 

Ele não é nada sério, mas também não é alguém que seja dispensável. Ele me atrai. Ele me entende. Ele me faz rir. Ele me dedilha como ninguém. Arranca de mim notas de suspiros agudos que ninguém nunca arrancou. Nosso caso é grave. Agravo de instrumento. 

Ao dele da cama - porque ele já tem um lado - no chão está a biografia do João Gordo e do meu lado, a autobiografia da Rita. A gente trocou presentes e precisou ser antes do Natal. Trocar no Natal é assumir um compromisso. E compromisso não é com a gente. A gente se comprometeu a ser feliz e a tentar fazer o outro feliz enquanto as duas coisas juntas forem possíveis. 

Eu precisava te escrever. Não há um pedido de desculpas. Não há saudade. Só um desejo de saber como você anda. Se conseguiu sobreviver a nós. Eu mudei tanto e foi depois de você. Eu nunca mais soltei um "eu te amo". Eu nunca mais enviei um texto pra ninguém. Eu nunca mais beijei como o Homem Aranha e a Mary Jane. Eu nunca mais enviei músicas e gravei uma trilha sonora ou fiz uma playlist romântica. 

As músicas minhas e dele são todas pra nossa hora. Eu adoro cada uma delas, são intensas, são excitantes. Quando eu falo assim, parece que eu e ele é só físico, mas não é. Ele tem algo que me prende, pelo olhar, pela mão, pelo riso. O olho dele fica pequenininho quando ri. Ele me deixa leve. Eu sou com ele quase o melhor que eu já fui com você. Não acho injusto com ele. A gente é assim. Eu sei que vai ter um dia que ele não vai voltar. E eu vou precisar me livrar do cheiro dele no travesseiro, trocar o sofá. Mas quando ele for embora eu estarei preparada, eu vou ter me despedido, porque cada dia pode ser o último. 

Com você não. A gente não sabia que era o último beijo. O último domingo dividindo o sofá. O último cinema. A última refeição. Desde que você foi embora e disse adeus da maneira mais fria possível, eu comecei a sempre esperar o fim. E ele sempre chegou. 

Eu não quero adiantar as coisas por aqui. Vê-lo dormir e poder abraçá-lo é seguro. Porque eu não me ancoro. Eu sou um barco a navegar. Hoje minha maré é ele. Na outra lua ela pode virar. Pra mim. Pra ele. 

Te escrevo pra dizer que estou bem, mas já não sou quem fui contigo. Oito tatuagens a mais e muito medo de nunca voltar a amar. 

Vou dormir. Me enrolar nos braços dele que nunca me prometeu ficar, que eu nunca pedi pra não ir, mas nunca me deixa a esperar e volta mesmo quando eu acho que vai partir. Além disso, amanhã a gente trabalha e pra dar tempo do café não podemos nos atrasar. 


Pra você

Agora há pouco eu acabei de ler o texto do Gregório pra Clarice. E aí eu lembrei de você. Do filme deles que assistimos juntos, porque você lembrou de mim, porque o filme lembrava o outro filme que amo e que você varreu a internet pra encontrar há muitos anos.
Eu quis escrever pra você, porque o Gregório me fez perceber que devemos valorizar o amor que demos e recebemos, e que só porque o amor acabou não quer dizer que não existiu: o amor acaba, já dizia o Antônio Prata.  Aí eu entendi o Felizes para sempre dos contos de fada. Você já percebeu que tem o ‘foram’ antes? O verbo no passado? Foram felizes para sempre. Só é possível a felicidade eterna no passado. Mantendo as lembranças boas. E como tenho lembranças boas da gente. Até mesmo aquelas brigas dramáticas são boas lembranças.
Com você eu podia dormir no cinema, eu podia ocupar seu quarto, eu podia te deixar sozinho na sala, podia mandar todos os textos pra você ler, podia curtir Muse, porque você também curtia, a gente tinha a nossa trilha, o nosso tempo, o nosso mundo. A gente ia à tarde pra faculdade pra aproveitar cada minuto. Você lia minhas matérias do jornal pras suas colegas, orgulhava-se de mim. Eu amava como você era gentil e educado com todos. Eu amava seu modo de ver o mundo. Eu amava o modo como você me amava. Eu amava o modo como tudo com a gente era diferente. Conhecer sua família tão rápido, ficar amiga da sua mãe, como sou até hoje. Eu amo o modo como você foi meu melhor ex-namorado. Amo o modo como me apresentou pro meu novo amor. Amo o modo como me ouvia falar dele, reclamar. Eu amava o modo como me entendia. Eu amava o modo como me surpreendia com cada presente incrível, mesmo depois do fim. Eu amo o modo como ficamos amigos depois do fim. Eu amo o modo como por anos passamos a relação a limpo, sempre agradecendo pelo que vivemos, reconhecendo nossos erros. Talvez, se eu parar pra pensar, eu ainda te ame. Naquele tempo infinito.
A gente desbravou esses sentimentos que todo mundo tem aflorado, mas a gente teve que procurar bastante. E aí a gente não conseguiu lidar com tudo aquilo. E acabou. O amor acabou depois da nossa relação, mas isso é normal. Eu acho.
Eu sei que você lê e assiste o Gregório. Eu sei que você ouve a Clarice.

É isso, eu só queria dizer que nós dois fomos felizes para sempre e que eu acabei de descobrir. 
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